Amadeus

As notícias viajam depressa em Viena.


Amadeus é já o vencedor de oito Óscares (um deles, que para mim é o mais merecido de todos, é o de Melhor Som), e um sucesso desde 1984 (pelo menos para aqueles que sabem da sua existência e não se limitam pelo que há agora). Foi baseado na peça teatral de Shaffer, com o mesmo nome, e apesar das críticas atacarem especialmente a sua falta de rigor histórico, continua a ser uma boa hipótese com alguma probabilidade de ser verdadeira.

A verdade é que ninguém sabe com exactidão o que se sucedeu naquela altura…

Bem, tudo isto gira à volta de dois compositores: um genial, conhecido por todos, e um não tão famoso. Todos aqueles que eu conheço sabem dizer quem foi Wolfgang Amadeus Mozart, como foi genial e ainda hoje é fácil encontrar os seus trabalhos. Mas, e quem sabe alguma coisa de António Salieri? Quem já ouviu alguma das suas óperas em qualquer lado? Pois, o problema é exactamente esse.

Antes de voltar ao filme, deixem-me tentar uma coisa. Cada um tem algo de que gosta incondicionalmente, seja ler, videogames, etc. Esse hobbie chega, às tantas, a ser mais que um hobbie. E se for algo como escrever, ou desenhar, ou música, ou qualquer outra coisa que dê para levar para a frente… ainda melhor. E por um bom tempo está tudo bem. Até que chega aquele certo alguém. Uma pessoa que nem precisa de se esforçar para fazer o mesmo que nos leva litros de suor, um prodígio adorado por muitos. E, para piorar ainda mais, um alguém que é infantil, e nem parece levar nada a sério.

Agora imaginem Salieri. Pobre homem.

A história é contada por ele mesmo a um padre, quando internado num hospício por se ter tentado matar com um golpe na garganta, sempre a gritar por perdão pela morte de Mozart. A confissão de Salieri, da sua narração sobre a sua vida e a rivalidade entre ele e Mozart, dura a noite inteira.

Começa quando Salieri, jovem, mantinha a sua preferência pela música e a sua devoção por Deus, enquanto o seu pai exigia que este deixasse de sonhar em ser um “macaco amestrado” e pensasse antes nos negócios da família. Já nessa altura, acompanhado pelo pai, o jovem Mozart tocava violino e piano nas cortes, visto como um génio. Mas quando o pai morre, engasgado, Salieri vê-se livre, por fim. Livre para dedicar a sua vida àquilo que mais queria. Como (e naquela época as pessoas eram católicas ferrenhas) atribuía àquele facto um “milagre de Deus”, pagava com sacrifícios. Assim conseguiu chegar a compositor da corte do imperador José II.

E é aí que ele conhece, finalmente o jovem Mozart. Primeiro vê-o sem saber quem é, apenas um rapaz brincalhão, despreocupado e irreverente. Só depois o reconhece, assim como o seu talento. Mais tarde, aquando da apresentação de Mozart ao imperador, Salieri compõe uma “Marcha de Boas Vindas”, tocada em piano pelo próprio imperador (e devo dizer que o imperador não tinha mesmo jeito nenhum para o pobre instrumento). A Mozart, bastaram poucos minutos para decorar a música e ainda modificá-la, soltando aquela gargalhada tão característica.

Portanto, Salieri via-o agora como a forma que Deus encontrara de fazer pouco da sua mediocridade. Essa sensação é ainda mais intesificada quando se apercebe que Mozart escreve música como se escrevesse uma carta: sem um único erro, sem rascunhos, apenas escrevendo música. Apesar disso, estava com dificuldades com os italianos, da corte do imperador. Durante todo o tempo passa a vigiá-lo: contrata uma empregada para Wolfgang e Constanze de forma a mantê-los debaixo de olho, e segue-os até um baile de máscaras, onde eles iam com o pai de Mozart. Uma das cenas mais emblemáticas é quando Mozart imita Salieri ao piano, no meio da festa, enquanto todos se riem. Todos excepto Salieri e o pai.

Mais tarde, com a morte do pai, Mozart fica de luto, e é aí que Salieri põe em marcha o seu plano de, pelo menos, ficar com um pouco da sua genialidade. Mascarado da mesma forma que o pai do compositor no baile de máscaras, encomenda-lhe uma obra: Réquiem (para quem não sabe, esta foi, de facto, a última obra de Mozart, tanto que ele a deixou inacabada, mais ou menos a meio de Lacrimosa).

De saúde fragilizada, com problemas financeiros e com dificuldade em acabar o Réquiem e Die Zaubberflote (A Flauta Mágica), entra em exaustão e em constantes discussões com a mulher, que sai de casa com os filhos. Mozart desmaia na estreia de Die Zaubberflote, e é levado por Salieri para casa. Enquanto este escreve, Wolfgang definha na cama e dita-lhe. A mulher, arrependida, regressa. Mas é tarde demais: Mozart morre, Réquiem está incompleto e Salieri não pode fazer mais nada, senão olhar para o corpo do falecido compositor é depositado numa vala comum.

Salieri termina a narrativa, e reconhece-se como o “patrono da mediocridade”. Para ele, Deus levou-o a melhor: não só fez pouco dele, como também acabou com a vida de Mozart, seu suposto “instrumento”, antes que pudesse ter aproveitado sequer um pouco da sua genialidade.

Além da história, de certa forma cativante, há duas coisas que distinguem este filme de tantos outros. Uma é a gargalhada de Mozart, e as suas piadas. Se não conhece, então eu aconselho a ver, até porque aquela gargalhada é contagiante (e única). A outra, e provavelmente a que ocupa o primeiro lugar no filme, é a banda sonora. Do início ao fim do filme somos premiados com diversas obras de Mozart, perfeitamente enquadradas nas cenas do filme, assim como alguns trabalhos de Salieri (a Marcha das Boas Vindas e alguns exemplos no início, para testar o padre, que não conhece nenhuma delas, a não ser os trabalhos de Mozart).

Aconselho qualquer amante de música clássica a ver, e rever. Só a banda sonora já vale por muito, sem falar na interpretação de Tom Hulce do cómico Mozart.

Imagem ilustrativa: capa original do filme encontrada no Google e doll editada e modificada do CandyBar Korean. Pixel do violino por Stradivaria. Esta imagem não possuí fins lucrativos, apenas ilustrativos.


Kurai Biorin