Capítulo 9
Plano interrompido
Só pararam em frente de um pequeno bloco de casas para arrendar. Entraram dentro de uma delas, divertindo-se a imaginar o seu recheio e um conforto inexistente. Porém o dinheiro não era suficiente, mesmo este sendo muito. Nofrure tentara mesmo duplicar as moedas, mas o efeito não foi o desejado.
- Não creio que seja possível duplicar dinheiro. - Cassidy acabou por soprar ao vento, após a quinta tentativa frustrada da tanageriana ter resultado em pequenos pedaços de carvão negro. Ringo ria-se a cada tentativa e a cada resultado desastroso.
Acabaram por desistir e procurar uma habitação mais económica. Voltaram à praça central, em frente da igreja, onde uma fonte de pedra com a estátua de uma mulher alada fazia as delícias das crianças. Estas estendiam as mãos para a água que jorrava de um pote que a estátua carregava ao ombro, e, de seguida, salpicavam-se umas às outras.
Experimentaram um bairro recentemente remodelado, mas afastaram-se rapidamente ao saberem que o preço para alugarem uma casa ali era ainda mais elevado do que nas anteriores. Procuraram em mais lugares, mas as moedas que tinham nunca eram suficientes.
Acabaram por se sentar à beira da fonte, novamente, cabisbaixas. Ringo estava muito mal-humorada, e foi com algum sarcasmo que se virou para o lado e perguntou à sibila:
- Tu já sabias disto, não é?
A princípio ninguém disse nada, e Cassidy mexeu-se desconfortavelmente no banco de pedra acinzentada. Por fim Nofrure anuiu com a cabeça.
- Eu sabia, eu sabia! Nem sequer abriste a boca por causa disso. - Acusou-a, e a ivoriana desviou-se delas, como se procurasse distanciar-se da batalha inglória.
Foi quando reparou numa carruagem que descia a rua a uma velocidade que não lhe parecia autorizada para qualquer um. De facto algumas mães viam-se forçadas a saltarem do caminho e a puxarem os filhos pelos braços antes que fossem atropelados. Primeiro achou que era uma atitude deveras arrogante de quem ia a conduzir os cavalos, mas após um olhar mais atento uma sensação de vómito formou-se-lhe no estômago.
- Não entendes, não é assim tão exacto! E eu vi coisas piores! - A sibila estava à beira do choro, com os nós dos dedos pálidos da força.
- O quê? Pior! O que é pior? - Gritava, fazendo com que todas as atenções se virassem para elas. Em vão Cassidy tentou chamá-las.
- Os oficiais! - Sem outra alternativa, puxou o longo rabo-de-cavalo de Ringo. Tendo sido bem sucedida, continuou. - Os oficiais das masmorras de Paladina estão aqui, encontraram-nos!
Era o pânico geral. A carruagem parara na praça, e os transeuntes, temendo represálias, afastavam-se. As três não esperaram por mais cada, e, escorregando nos mosaicos de mármore alaranjado, começaram a correr em direcção a outra rua. Desta vez qualquer maneira de fuga parecia distante e pouco eficaz. Não podia trepar aos telhados outra vez, porque agora tinha Ringo e Nofrure ao seu lado.
Estavam a ser perseguidas por cinco deles, armados, e ligeiramente mais altos e rápidos do que elas. Não havia tempo para parar e criar uma barreira entre eles e elas, uma vez que ao mínimo atraso eles seriam capazes de as alcançar. Jamais compensaria, pensava Cassidy com a garganta anormalmente seca.
Enveredaram por outra rua, derrubando caixotes do lixo atrás de si. Ouvia-se o metal a estalar, no chão, e latas enormes a rolarem de encontro aos perseguidores. Estes, tal como elas, não paravam por qualquer motivo, nem mesmo quando um deles acabou por ficar para trás, caído numa amálgama de sacos do lixo com cascas de frutas e restos. Entre eles não parecia haver o espírito de equipa, mas individualidade também não seria a palavra certa para os descrever.
- O que fazemos agora? - Ringo olhava em volta. As janelas fechavam-se à sua passagem, como se os habitantes temessem represálias só por olhar. Eram como um povo qualquer, pobres e temerosos.
Lembrando-se das estranhas proporções que a Guerra de Paladina havia tomado, a ivoriana perguntava-se qual o estado das outras cidades da ilha, incluindo o de Ivoria. A cidade do norte era das mais distantes e competitivas em relação a Paladina, mas tratava-se de uma única força e não de uma cidade. Como se alguém agisse atrás dos bastidores, dando ordens secretas e fazendo desaparecer os únicos que poderiam fazer frente àquela onda de pânico.
- Por aqui! - Nofrure apontou uma outra rua, de aspecto mais escuro e sujo. Um cheiro pútrido invadiu-lhes as narinas, fazendo os olhos lacrimejarem. A calçada estava molhada, e uma água escura e lamacenta escorria mesmo ao seu lado, o que fazia com que escorregassem.
Aquela rua dava acesso a outra, muito mais limpa e luminosa. Já não ouviam passos atrás de si, e por momentos, depois de se voltarem e de se descobrirem sozinhas, pensavam que os tinham despistado. Por breves segundos chegaram mesmo a respirar de alívio, embora tivessem a sensação de haver algo errado ali. Isso antes de serem surpreendidas pelos oficiais ao sair da rua.
Tinham caído mesmo nos braços deles. Cassidy fora agarrada pelo pescoço por um, mas conseguiu soltar-se depois de lhe morder o braço. Ringo, que era um espírito, tornara-se imaterial, de modo que nenhum deles a conseguiu agarrar. No entanto Nofrure não se conseguia soltar, e já lhe estavam a amarrar os braços.
- Nofrure! Não, Nofrure! - Ringo, tentou alcançá-la, mas uma outra mão agarrava-lhe o braço, o que lhe parecia impossível uma vez que estava imaterial.
- Corram, fujam! - Gritou-lhes, antes de a amordaçarem também. E a rapariga-espírito foi puxada pelo braço, afastando-se a paços largos da amiga. Ouviu um violino a ser tocado em pizzicato, e uma enorme serpente negra como tinta surgiu do chão à frente dos oficiais e de Nofrure. Precipitou-se sobre eles, mas um escudo translúcido com alguns caracteres estranhos nele desenhados envolveu-os. Cassidy reconheceu-os, com um choque desagradável.
- Não sabia que os oficiais agora também fazem magia. - Ringo comentou, vendo-os a ficarem para trás, a defenderem-se da enorme serpente que investia, de dentes brilhantes a tentar perfurar a defesa.
- Não podem. Aquilo é obra do Demergon. - A ivoriana respondeu, com um trago amargo na voz. A outra engoliu em seco, pálida, e embora não soubesse quem ele era, o nome provocou-lhe um arrepio na espinha.
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