Capítulo 8
A cidade do Outono
Após mais uma tarde vagueando pela floresta, constataram, com alívio, de que a paisagem começava a mudar drasticamente. As árvores de folhagem frondosa foram substituídas por pomares e campos agrícolas. Mas, infelizmente, já era noite quando avistaram as luzes amareladas e fantasmagóricas de Amarentia. Uma vez que Nofrure insistia em entrar na cidade de manhã, escolheram uma tangerineira de tronco largo para se encostarem enquanto repousavam.
Para enganar a fome tinham colhido algumas frutas, embora a tanageriana considerasse essa acção errada. Para ela, aquilo era roubo, e só se convencera quando a morena da franja vermelha deixou três moedas ao lado de uma macieira.
Cassidy voltara a sonhar com a estranha pirâmide. Voltou a acordar, sentido frio. Uma brisa fresca soprava do norte, e ela, que sempre fora friorenta, encolhia-se. Só depois reparou que não era a única a estar acordada. A sibila estava sentada, a contar as estrelas. Perdera a sua serenidade habitual, e dois rastos brilhantes diziam-lhe que ela já tinha estado a chorar.
- Nofrure, está tudo bem? - Perguntou-lhe, talvez demasiado inflexível. Aproximou-se dela, enquanto se reprimia, mentalmente, pelas palavras terem soado daquela maneira.
- Não, está tudo bem. Eu só... foi uma das minhas visões. - Ela baixou a cabeça, abanando-a. - Mas está tudo bem, foi uma visão boa.
- Então se foi boa, porque choras? - Perguntou-lhe, enquanto ela mesma tentava entender as entrelinhas. Ainda haviam pontas soltas nas suas respostas, pontas das quais ela desconfiava.
- Eu choro de emoção. - Virou-se para ela, esboçando um sorriso. Atrás delas um raio de sol varreu o campo, acordando Ringo. As três viraram-se para oeste, onde o perfil da metrópole se estendia.
Atravessaram uma plantação de milho, e a ivoriana não pôde deixar de reparar no olhar cúmplice de Nofrure, ou no simples facto de que ela estava mais calada. Ringo também parecia ter reparado nisso, uma vez que não despegava os olhos da sibila. Contudo também ela se mantinha em silêncio, fazendo com que aquele caminho parecesse muito mais fúnebre que o resto da viagem.
Amarentia era uma cidade pacata, caracterizada pelas árvores de folhagem castanha e amarelada que a cercavam. Ao centro, acima dos baixos telhados alaranjados e acastanhados das habitações, via-se o alto campanário da igreja, com um pesado sino que fazia ressoar as suas badaladas pelo burgo inteiro.
Cassidy, Ringo e Nofrure desceram a encosta, enquanto o cenário campestre que as rodeava era substituído por quintas e casas, de paredes brancas com o rodapé pintado de amarelo. As janelas ainda estavam fechadas, mas já era possível ouvir alguns galos, desafinados. Para a morena, aquela era a altura perfeita para andarem em terreno desconhecido. Havia luz suficiente, e as pessoas ainda estavam a acordar.
Apesar da falta de neve química e dos tons mais amarelados e quentes, havia semelhanças entre Ivoria e Amarentia. Tal como na sua cidade natal, Cassidy encontrava algumas casas com jardins bem cuidados à frente e outras habitações bem menos vistosas, diferenciando as classes sociais. Haviam cafés e pastelarias de montras chamativas, pequenos quiosques e lojas que tentavam prosperar, e restaurantes que exibiam o menu em frente da porta. No entanto aquela metrópole era menos adepta das pesadas máquinas a vapor industriais sobre as quais a cidade do norte se apoiava. Por isso era possível notar-se um ambiente mais limpo e fresco do que em Ivoria, e até mesmo mais vegetação natural.
Entraram num pequeno restaurante que já tinha aberto a sua porta ao público. Tinha um aspecto simples e pacífico, e um cheiro agradável a comida acabada de sair do forno escapava-se, lentamente, misturando-se na brisa suave. Foram seguidas pelos olhos das empregadas e de outros dois clientes matinais, sentados à mesa e de pratos meio vazios à frente. Dirigiram-se a uma mesa num canto do estabelecimento, perto de uma janela. Uma empregada, de longos caracóis brancos, atendeu-as, hesitante. Apertava o bloco de notas entre as unhas curtas, mordendo o lábio inferior.
Fizeram o pedido, escolhendo os pratos mais baratos, uma vez que a ivoriana já contava as moedas que tinha com uma fina ruga na testa. E, se quisessem estabelecer uma vida naquela cidade ainda precisavam de algum dinheiro.
Os pedidos não tardaram a chegar, uma vez que não haviam mais clientes. Nofrure mantinha-se calada, enquanto mordiscava uma panqueca com doce de alperce. Cassidy, beberricando uma xícara de chá de canela ivoriana importada, olhou de lado para ela, lembrando-se muito da sua mãe antes de morrer. Tinham as duas o mesmo ar abatido, pálido e melancólico. Mas achou demasiado tétrico estar a comparar as duas naquela altura.
O chá não tinha o mesmo sabor do original. Era mais adocicado, sentia-se a presença de bastante açúcar, quando na pastelaria onde costumava ir não lhe metiam nenhum. No entanto sentia falta daquele sabor intermédio entre a canela, a menta e a baunilha. Ringo devorava um pequeno muffin de chocolate, lambendo os dedos como uma criança gulosa. Mordeu o lábio para não se rir dela, ou então teria de enfrentar um dos seus amuos.
Despejou uma mão cheia de moedas em cima da mesa, ao lado dos dois pratos e da chávena vazia. Estas tilintaram alegremente, chamando a atenção de uma das empregadas. As três levantaram-se, prontas para saírem do pequeno restaurante, e Ringo reparou no olhar enviesado da funcionária que recolhia o pagamento. Puxou, tentando ser o mais discreta possível, uma das mangas do casaco preto de Cassidy, que se voltou para ela de sobrancelhas franzidas.
- Que é? - Sibilou furiosamente para a outra, mas ela apenas acenou com a cabeça para trás. A ivoriana também se voltou, e constatou que a empregada fora demasiado lenta e óbvia a esconder o seu súbito interesse nelas.
- Algo me diz que este restaurante não é muito popular... - Comentou mordazmente, empurrando a porta envidraçada do estabelecimento. Tinha a desagradável sensação de estar a ser observada. Mas decidiu ignorá-la, uma vez que já sabia ter, pelo menos, três pares de olhos fixos nas suas costas.
- E agora, uma nova vida. Ah, e uma casinha, que eu não quero dormir na rua. - Ringo puxou as mãos das duas até ao centro de uma cidade que, de repente, se tinha animado como um grande espectáculo, sem que elas tivessem reparado.
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