Capítulo 7
A violinista
Viraram-se para trás, e Nofrure escorregou. Acordou com a queda, estremunhada, olhando para os lados. As três recuaram, sempre de olhos fixos nos arbustos, à espera de os verem mexer-se. Cassidy voltou a invocar o violino, branco como a neve e de cordas douradas, apontando o arco à sua frente.
Surgiram algumas sombras esguias, pertencentes a homens, que mais pareciam vagabundos. Sujos e amarrotados, estes olhavam-nas com um ar faminto e ligeiramente assassino. Aproximavam-se, de braços estendidos, as roupas esfarrapadas deixando os membros descarnados e de pele queimada pelo sol à mostra.
- Ringo, leva a Nofrure. Afastem-se. – Gritou para trás, encostanto o violino ao maxilar. Colocou o arco sobre ele, e deixou que este criasse uma melodia suave, cuja intensidade aumentava gradualmente. Assim como a ária, o ar começou a enrolar-se sobre si mesmo, cada vez mais forte.
Nofrure e Ringo afastaram-se, e um pequeno tornado começou a varrer a floresta, levando consigo folhas e pequenas pedras. Os Saqueadores recuaram, mas nem por isso pareciam ter desistido. Cassidy mudou a melodia, e desta vez, sombras de enormes cães, de focinho afilado e longos dentes metálicos e brilhantes como sabres afiados, surgiram dos recantos escuros da floresta.
Atiraram-se acima dos atacantes, e sem esperar mais, Cassidy interrompeu a melopeia e fugiu atrás das outras duas. Apenas pararam a corrida quando chegaram a uma clareira, onde o sol incidia, aquecendo o ar com a sua luz agradável. Ofegantes, pararam, de joelhos na erva macia.
- O que foi aquilo? – Nofrure ainda olhava para trás, tentando recuperar o fôlego.
- Os Saqueadores? Estão por todo o lado, desde que alguém os mandou à procura de um tesouro que dizem que existe. – Ringo explicou, flutuando a dez centímetros do chão. A ivoriana começou a invejar aquela capacidade, até porque as suas pernas reclamavam da corrida.
- Não! O violino. – Nofrure olhava para ela, e não para a sua protectora. Sentiu-se apanhada de surpresa, pois não tinha uma boa resposta para aquilo.
- Isso é…
- Uma invocação de demónios secundários apenas conseguidos por altos sacerdotes. Pessoas que estão directamente ligadas a Deuses, como a Basttete. – Ringo interrompeu-a, assumindo, desta vez, um ar grave. Cassidy sentiu-se como uma criança apanhada a meio de uma traquinice.
Nenhuma delas disse mais nada, mas era mais do que claro que, quando se olhavam, os seus olhos transmitiam algum significado. Era pior do que se cochichassem entre elas sobre si. Retomaram o caminho, desta vez com o sol como guia. Já estavam a caminhar há horas, e apenas tinham parado naquela clareira. A tanageriana sentou-se no chão, com o estômago a roncar.
- Não há nada que se possa comer? - Perguntou, começando a esgravatar na terra, perto de um tronco de umas árvores. Conseguiu desenterrar um estranho tubérculo, claro e de aspecto suculento. - Aqui há tubérculos, podemos cozinhar.
Cassidy e Ringo puseram-se de joelhos, a escavar também, quando a ivoriana levantou a cabeça. Conseguia ouvir um som gorgolejante e líquido. Como o de um riacho.
- O riacho! - Gritou, levantando-se à pressa. - Podemos tentar pescar.
As outras olharam-na. Nofrure sorria, mas Ringo estava inexpressiva. A sibila voltou-se, abrindo o pequeno saco de pano que trazia consigo, e tirando um pequeno pau. Fechou os olhos, concentrando-se e murmurando palavras num idioma estranho, e desse mesmo pau surgiram duas canas de pesca.
- Prontos! Vocês as duas vão pescar e eu fico aqui, a arranjar tubérculos e algo onde cozinhar. - Nofrure sorria, e deu-lhes as canas. As duas viraram-lhe as costas, e tentaram seguir o som da água. Ao mesmo tempo iam fazendo pequenos riscos nos troncos por onde passavam, como uma indicação do caminho de volta, caso se esquecessem.
Naquela zona o riacho tinha-se alargado, e algumas ondulações à superfície criavam a ilusão de haver peixes. Lançaram os anzóis à água, e sentaram-se nas pedras da borda. A princípio as expectativas eram mais do que muitas, mas depois de meia hora a olhar para o reflexo na água sem sentir nada e com fome, Cassidy compreendeu que não seria uma boa pescadora.
- O que pensas fazer em Amarentia? - Ringo perguntou-lhe, de costas para ela, enquanto murmurava uma música estranha para a superfície do riacho.
- Não sei. Alimentar-me, procurar um lugar para me esconder. - Pela primeira vez em muitos anos estava a ser realmente sincera com alguém. Sem truques, sem manhas, sem meias verdades. Embora Ringo e ela tivessem génios aguçados, parecia entender-se melhor com ela do que com muitas pessoas que se haviam dito suas amigas.
- Se eu estivesse no teu lugar. - Refastelou-se no seu lugar, olhando o céu nublado. - Procurava saber mais. É óbvio que tens um papel mais destacado nesta guerra, ou simplesmente não estarias aqui. Eu sei que tenho.
- E se eu recusar esse “papel”? - O rumo da conversa não estava, de certo modo, a agradar-lhe. Desconfiava que ela sabia da enorme pirâmide, que pensava ser uma máquina.
- Mais tarde ou mais cedo vai aparecer alguém que te convença a fazê-lo, sabes? - Piscou-lhe o olho, e de seguida voltou-se novamente para o céu, fitando as nuvens preguiçosamente.
- E tu? - Cassidy ainda se lembrava de ela se ter referido como tendo algo a desempenhar.
- O que é que eu posso dizer? Eu sei o que eles procuram, e sei onde está. E sei que tenho de manter a boca fechada e encontrá-lo antes que outros o façam. - Levantou-se, recolhendo a cana de pesca, com um peixe de tamanho considerável. De repente também ela sentiu um puxão no fio de coco, e, fincando os calcanhares na terra mole, puxou com quantas forças tinha. Um peixe gordo saltou da água, e sem se importar com a lama, agarrando o peixe com as duas mãos e forçando-as contra as guelras. Este parou de se contorcer, ficando imóvel nas suas mãos.
Levaram os peixes até Nofrure, que cozinhava numa panela velha e baça em cima de uma fogueira improvisada com pequenos troncos secos. Sentaram-se em volta dela, aquecendo-se e comendo o almoço mal cozinhado que tinham conseguido.
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