Capítulo 5
Tocados pelos espíritos


- Uma “tocada pelos espíritos” - Nofrure começou a explicar, captando a sua atenção com gestos das mãos. - é uma pessoa que já foi submetida a algo como uma experiência de quase morte. São muito raras, essas pessoas, e mais recentemente verificou-se que tal só é possível com um mecanismo apenas presente no laboratório da Universidade de Paladina. Tu és uma delas. Desde quando tens os olhos assim?

Parou um pouco para reflectir, enquanto a outra usava a magia para fazer movimentar um par de agulhas com linhas pretas, que remendavam as suas roupas. Ia quase a dizer que tinha os olhos amarelados e ácidos desde que se lembrava, mas isso não era inteiramente verdade. Ainda sonhava com a cascata de luz forte e as vozes. Muito embora ignorasse isso, pois não se lembrava de nada mais, e nunca tinha visto nada assim.

- Não sei. - Acabou por soprar, com pouca vontade de continuar com o assunto. Afinal, ela era uma fugitiva das autoridades paladinenses. E isso não ficava bem a ninguém.

- E recentemente recebeste uma carta de Paladina a invocar a tua honrável presença no meio das masmorras da podridão, certo? - A tanageriana gozou-a, mas Cassidy pulou, como um gato, alerta. Olhou para ela, desconfiada.

- Como sabes isso? - Rosnou-lhe, visivelmente nervosa. A outra abanou a cabeça, e as agulhas, tendo terminado o trabalho, soltaram-se dela.

- Sou uma Sibila. Tenho visões do passado, presente e futuro. Foi fácil. - Pousou-lhe a mão no ombro, baixando a cabeça. A morena podia ouvir a cabeça da outra a engrenar qualquer coisa, e fosse o que fosse não deveria ser uma coisa boa.

- Então... Nofrure... penso que é melhor ir embora. - Começou a recuar, ponderando as hipóteses de escape que tinha. No entanto constatou que estas eram muito poucas e pobres, bastava que a outra fosse um pouco rápida que poderia alcançá-la.

- Não! - Atirou-se a ela, apanhando-a pela barriga. Cassidy caiu de costas, com a outra em cima do estômago. Isso lembrou-a, desagradavelmente, que a sua última refeição fora um pequeno lanche, e que, provavelmente, seria meia-noite.

- Nofure... -Tentou libertar-se, e começou a ouvir passos, novamente. Contorceu-se, até que a outra a soltou.

- Ringo, onde estavas? - Perguntou quase aos gritos, mesmo em cima dos seus ouvidos. Rastejou para longe, voltando a levantar-se e coçando as orelhas. Quando se voltou, viu Nofrure a conversar com uma estranha figura. Era baixa, não devia ser mais alta do que a sua cintura. Também tinha uma cartola, como ela, e um elegante casado de ombros largos por cima de um vestido simples. O conjunto era todo vermelho, tirando uns sapatos pretos e brancos e uma gola alva como a neve.

- Fui ver se encontrava mais cogumelos. Mas não há. Nada. - A voz era característica de uma pessoa sarcástica e cínica. Também parecia rabugenta, ligeiramente ácida, enquanto Nofrure lhe respondia com a maior doçura que podia encontrar.

- Quem é ela? - A figura de vermelho acabou por perguntar, mal disfarçando um certo desinteresse e talvez uma pontada ligeira de desprezo na voz. Apeteceu-lhe responder à letra, mas a sibila cortou-lhe a palavra.

- Ringo, esta é a Cassidy. Ela tem os olhos de Basttete, pode bem ser quem procuramos. - Falava com um certo ênfase na voz que não era acompanhado pela outra. Na verdade, Ringo parecia surpresa pelo facto da morena de longos cabelos negros a admirar tanto.

- Cassidy, esta é a Ringo. É um espírito imortal. Ela está de mau humor, mas é por causa da fome. - Explicou-lhe, apontando para a outra. Os seus olhos, azuis e argutos, pareceram fixar-se nos dela, mas nada disse. A morena da franja vermelha lembrava-se de ter ouvido falar nos espíritos imortais, que por vezes se associavam a famílias nobres. Na verdade, na altura não se importara muito com o assunto, pois era algo longe do alcance das suas mãos. E se assim era, não valeria a pena preocupar-se com isso, porque o seu orgulho não lhe permitia rebaixar-se a tal. Mas, naquele momento, despertou-lhe a atenção.

- E ela vai servir para quê? - Ringo perguntou, sem papas na língua, nem se importando com o facto de ela estar ali ao lado. Gerou-se uma sensação de desconforto entre elas.

- Ringo! Ela tem os olhos de Basttete, pode ser aquela que procuram. – Nofrure respondeu-lhe entre dentes, exasperada, virando as costas a Cassidy. Parecia querer esconder-lhe qualquer coisa.

- Imprudente. Não insistas. – O relógio sussurrou-lhe de dentro do bolso, e ela suspirou. Tinha razão, seria demasiado imponderado se exigisse mais respostas, ainda mais quando a rapariga parecia estar mais nervosa.

- Muito bem. Faltam três dias de viagem até Tanagéria. – Ringo apontou-lhes um caminho, que se embrenhava ainda mais na floresta. Tanto uma como a outra assentiram com a cabeça.
Cassidy seguiu-as, olhando para trás durante alguns segundos. Ao longe ainda via o telhado cónico da sua torre, e reparou que alguns pássaros de considerável envergadura sobrevoavam-na. Corvos. Conhecia-os de vista, e sabia como adoravam casas recentemente abandonadas. Eles que lá ficassem, teriam um melhor proveito da Torre do Relógio do que ela. Profundas badaladas anunciavam a meia-noite, e deixou de ver alguma coisa depois de alguns passos.

- Depois deste trilho deixamos de ter qualquer indicação, mas é só continuar para oeste. – O espírito interrompeu o silêncio, olhando para ela com olhos avaliadores.

- E como vamos saber onde fica o oeste? – Nofrure perguntou, e as outras duas quase caíram. Para a morena aquela era uma pergunta desnecessariamente inútil.

- Pelo sol e pelas estrelas. Não aprendeste a orientar-te lá no templo? – Cassidy perguntou-lhe, não evitando uma nota de desapontamento na voz. Julgava-a mais esperta.

- Ela é boa, caramba. – Ringo segredou ao ouvido de Nofrure, alto o suficiente para que a ivoriana também ouvisse. Isso alimentou-lhe o ego, mas manteve-se calada, antes que estragasse o precário equilíbrio.

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