Capítulo 4
O olho de Basttete
No meio do luar, mergulhada na penumbra proporcionada pela copa densa das árvores, posicionou o arco sobre as cordas douradas do violino, com uma postura altiva de defesa. Fixava intensamente os arbustos, como se os quisesse queimar com os olhos. Estes mexeram-se furiosamente, antes de uma figura franzina sair de dentro deles, caindo de joelhos no chão.
À primeira vista só conseguiu distinguir uma longa cabeleira negra e ondulada por cima daquilo que parecia ser um vestido verde com uma faixa dourada larga, na borda. Quando ela se levantou, pôde ver que este tinha uma gola subida e que a parte verde se abria à frente, mudando para dourado. Tinha mangas compridas, terminando também com uma faixa dourada. Enquanto as partes verdes eram lisas, as partes douradas tinham detalhes bordados com linhas encarnadas. A saia chegava-lhe até aos joelhos, mostrando umas pernas delgadas cobertas por umas meias de linho branco com umas sandálias fechadas por uma tira de couro preto. Reconheceu-o como o uniforme das sacerdotisas aprendizes do Templo de Tanagéria.
- Por favor, por favor, não... - Encolheu-se, e voltou a cair de costas. Era inegável que ela a tinha estado a seguir, no entanto não havia razão para qualquer ataque. Era apenas uma rapariga, mais baixa e mais frágil do que ela, facilmente ficaria em vantagem, mesmo se fosse só com as mãos.
O violino e o arco desfizeram-se em fumo, rapidamente levado por um sopro de vento. Fitou a morena, de olhos violetas e cristalinos. Apresentava vários sinais de estar a viver na floresta há algum tempo, como os cabelos desalinhados e algumas manchas de terra. Ela levantou-se, sacudindo a terra da saia, altivamente. No entanto foi com humildade que lhe voltou a dirigir a palavra.
- Muito obrigada. - Simulou uma pequena vénia, à qual Cassidy torceu o nariz. Não era da sua natureza ser tratada com respeito, em Ivoria a maioria tratava-a como igual e os restantes com desprezo.
- Não é caso para agradecer. Mas afinal o que faz uma noviça de Tanagéria no meio de uma floresta dos arredores de Ivoria? - Perguntou-lhe, disfarçando cuidadosamente qualquer emoção que pudesse ser mostrada subentendida entre as palavras. Naquele momento não lhe convinha a excessiva atenção do público alheio.
- Ivoria? Livra... aquela doida exagerou mesmo desta vez. - Falava mais para ela do que para a ivoriana, como se pensasse alto. Talvez fosse por isso que não entendeu a resposta.
A noviça começou a andar em roda, espreitando entre os arbustos e olhando para as frondosas folhagens das árvores. Continuava a falar de uma outra entidade que ela desconhecia por completo, e começava a duvidar da sanidade mental da tanageriana. Talvez ela tivesse uma amiga imaginária, porque de outra forma não conseguia explicar a estranha situação. Ou então tinha comido algum cogumelo envenenado, e naquele preciso momento estava a ter mais uma alucinação tremenda.
- Mas olha a confusão. E nem me apresentei. - Aparentemente desistira de procurar a misteriosa amiga “invisível”, colocando-se novamente à sua frente. - O meu nome é Nofrure Geb. Eu era uma noviça, antes de dissolverem o Templo de Tanagéria.
Baixava a cabeça enquanto o discurso fluía, e as últimas palavras foram ditas num fio de voz, que Cassidy teve dificuldade em perceber. Apercebeu-se então de que tinha tocado num ponto fraco de Nofrure, e que ela parecia ser facilmente afectável por isso.
- Cassidy Ridley. Foi um prazer. - Estendeu-lhe a mão, solenemente, numa maneira leve de tentar despedir-se da sacerdotisa e seguir o seu caminho. Porém não esperava que esta lhe agarrasse a mão, a virasse de costas para cima, vendo os nós dos dedos esfolados, nem que se condoesse com o estado da sua cara.
- Meu Horulette, olha-me para esse golpe. E essa equimose. - Só naquele momento se deu conta que, à volta do olho esquerdo, a cara estava dorida. Tentou afastar-se, mas era tarde demais. - Eu aprendi artes de cura durante muitos anos, posso resolver isso num instante. E também posso remendar e lavar as roupas, afinal todos nós aprendíamos magia. Só te peço para tirares os óculos.
- Não! - Respondeu bruscamente, afastando-se dela. Surpreendida, Nofrure apenas se riu, abanando a cabeça negativamente.
- Não vai doer nada. - Falou-lhe, numa voz calma e tentadoramente tranquilizante, enquanto se tentava aproximar de Cassidy. Tentou tirar-lhe a correia dourada pelas suas mãos, mas as outras esforçavam-se em atrapalhá-la e impedi-la de o fazer. Começaram uma pequena luta entre dedos, até que, vitoriosamente, Nofrure conseguiu soltá-los, e estes caíram no meio da erva molhada. Agarrou-os antes que a outra lhes pudesse chegar, e a única solução que a ivoriana conseguiu arranjar foi evitar olhar para ela, nos olhos.
- Ora, o que é afinal? - Desta fez já não conseguia encontrar alguma piada na situação. Nofrure começava a enervar-se, até que olhou para uma poça de água. E a outra também a fixava, intensamente.
- Meu Horulette... - Escapou-lhe dos lábios, assim que viu um par de olhos amarelos, brilhantes, com pupilas muito claras e em fenda, como os olhos de um gato ou de uma serpente. Assim, tão claros e límpidos, pareciam ferir a vista.
Cassidy fechou os olhos e estendeu uma mão, claramente a pedir os óculos de volta. Mas a outra não lhos deu.
- Tu tens os olhos de Bastette. - Nofrure declarou, depois de um longo silêncio, atrás dela. - Mas sempre podes fechá-los enquanto trato disso.
Virou-lhe a cara, apertando as bochechas. Passou um pano molhado na pele, e depois os dedos, quentes, enquanto murmurava uma fórmula, quase inaudível. Sentiu a pele a escaldar, mas no minuto seguinte já estava normal, e a pôr os óculos de novo.
- Se eu soubesse que também foste uma “tocada pelos espíritos” então já tinha sido diferente. - Confessou-lhe, revirando os olhos. A morena da franja vermelha cada vez percebia menos das conversas dela, mas tentou encontrar algum significado.
- O que é uma “tocada pelos espíritos”? - Perguntou, embora o seu instinto a levasse a adivinhar o que seria.
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