Capítulo 3
Fuga atribulada
Amarrotou o papel da carta, e reparou que as mãos lhe tremiam quase descontroladamente. Respirou fundo, enquanto se encostava à porta, fechando-a por completo. Se realmente ocorresse o que vinha escrito na carta, então não teria muito tempo até que a carruagem com os oficiais chegasse.
Não teria nenhuma hipótese contra eles. Seria apenas ela, os seus olhos e um violino invocatório, contra homens, provavelmente armados, mais velhos e com mais experiência do que ela. A sua única opção era fugir enquanto ainda tinha tempo.
Trancou a porta, e mudou a tabuleta a indicar o fecho da loja. Escancarou a montra, varrendo os relógios para um saco de pano. Abriu a porta da cave, e enfiou-os dentro de uma cómoda velha que ela lá tinha. Voltou ao estabelecimento, carregando para baixo os relógios de parede e todos os outros produtos que se orgulhava de vender. Quando, finalmente, trancava a porta da cave e escondia a chave por baixo dos mosaicos de madeira, atrás do balcão, ouviu um par de rodas de madeira e cascos de cavalos a pararem em frente da porta.
Rapidamente enfiou-se pela porta que dava acesso à sua casa, trancando-a também. Tinha as mãos suadas, e o coração palpitava-lhe no peito, causando um certo desconforto.
Entrou na sala, desarrumada, saltando por cima de um cobertor enrolado e de vários livros espalhados. Naquele momento sentiu pena de não poder levar nada com ela, mas foi acordada dos seus devaneios pelo som da campainha. Desistiu de tentar apanhar algo, detendo-se à procura de uma saída.
- Rápido! A janela! – O relógio lembrou-lhe, e esta precipitou-se sobre ela, abrindo o vidro. Subiu para o parapeito, agarrando-se à borda. De seguida olhou em volta, apenas encontrando o telhado do vizinho. Sem outra possibilidade, saltou, aterrando em cima das telhas. O impacto retirou-lhe o fôlego, e as costelas ressentiram-se.
Tacteando, com as mãos, as saliências, tentou descer, mas já tinha sido avistada pelos perseguidores. Rastejou até ao telhado da próxima casa, cada vez mais depressa. Era a primeira vez que andava em cima de telhados e, por isso, escorregava e perdia o equilíbrio. Tinha as mãos arranhadas, e estava coberta de poeira fina e avermelhada. O final da tarde avizinhava-se, e, com ele, flocos de neve prateada caíam sobre a cidade.
Estava a começar a ficar cansada. A temperatura ambiente começava a descer e, como consequência, as suas mãos gelaram, tornando a fuga mais difícil e dolorosa. Espreitou por cima do ombro, na esperança de os ter despistado nalguma das muitas esquinas e becos sem saída que atravessou, na ânsia de poder descer e correr normalmente. Já não os via, mas podia jurar que ouvia os seus passos a rangerem sobre a nova camada de neve virgem.
Continuou, avançando sobre telhados de todas as cores, tamanhos e feitios. Preferia os que eram feitos em telhas de xisto, uma vez que era mais lisos, e ganhou ódio às grandes coberturas das mansões, cheias de cornucópias e pombas em tijoleira baça.
Quando já era noite, e duas luas apareciam no firmamento, rodeadas de estrelas que, à semelhança de guizos, cintilavam, desceu, aterrando de costas sobre um monte de neve fresca. Com a respiração entrecortada, não se moveu mais, exausta e com sono. Sentia-se cada vez mais fria, mas pela primeira vez na vida não se importou com isso, nem se enrolou sobre si mesma, tremendo.
Depois de algum tempo inerte, resolveu arrastar-se até um sítio mais seguro. Estava na orla de uma floresta densa, de altas coníferas e bastantes arbustos rasteiros. Encostou-se a um dos troncos, massajando as têmporas, ainda trôpega das quedas entre os telhados. Fora, de longe, a pior fuga da qual ela já tivera conhecimento. Mais lhe valia ter descido e continuado em terra, com certeza não teria sido pior.
Lamentava também não ter trazido nenhum alimento. Desconfiava que aquela floresta não tivesse nada que ela pudesse comer sem ter o receio de ser venenoso. Não estava nada preparada para viver no meio da natureza pura. Porém não tinha outra hipótese. Não podia regressar a Ivoria, ou voltaria a ser perseguida pelos oficiais, que desconfiava que ainda estavam à procura dela pelo bairro.
Enveredou por um estreito carreiro de terra húmida, pisando folhas secas e galhos caídos das árvores. Pensava também no que faria num futuro próximo. Começaria por ir a Amarentia, a cidade mais próxima. Só aí poderia organizar melhor as suas ideias, e talvez alimentar-se. Felizmente que carregava consigo todo o dinheiro que conseguira tirar da loja, ou de outra maneira estaria condenada a vaguear até morrer de fome.
Talvez depois de Amarentia fosse até Paladina, mas algo lhe dizia que não seria dessa forma que resolveria o problema. Meter-se directamente na boca do lobo fora das piores ideias que já tivera. Deu uma estalada na sua própria cara, acordando um pouco mais. Doía-lhe a cabeça desde que se atirara da janela para o telhado do vizinho, e aconselhou-se a não repetir a proeza.
Ali perto passava um riacho de águas gélidas, que gorgolejava entre pedras arredondadas, aparadas por uma força que ele tivera num Inverno anterior. Aproximou-se dele, levando as mãos à água e molhando a cara. Lavou-se, arrependendo-se minutos depois porque não tinha onde se limpar e estava a começar a ficar com frio.
- Acho de depois disto vou ficar mais adulta. - Comentou, sarcasticamente, rindo-se do seu reflexo na água. As mangas do casaco estavam rasgadas e tinha um corte na bochecha que sangrava.
Levantou-se, pronta para seguir caminho até à cidade mais próxima da sua terra natal, contando apenas com a sua sorte. Já só tinha a luz das estrelas e das luas, Gante e Danimedes, por companhia, o que tornava a viagem bem mais soturna. De quando em quando ouvia o piar de um mocho, ou o ruído de outro animal, indicando a abundância em vida daquela floresta.
Começou a ouvir algo a mover-se nos arbustos atrás de si. Estacou, e olhou para trás, mas não via nada. Engoliu em seco, e quando estes se abanaram mais violentamente, invocou um violino, branco e dourado, que lhe surgiu nas mãos como se tivesse sido desenhado ali.
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