Capítulo 26
De volta ao chá


Eram sete e meia da tarde, recordara-lhe o relógio, e já começava a ser tarde. Tinha sido apenas mais um dia de trabalho normal, com vizinhas queixosas e relógios, muitos relógios. Relógios de cuco, relógios de bolso e relógios de pulso, todos eles sujos, ou sem pilha ou partidos. Aquela era a normalidade a que Cassidy estava habituada desde cedo, antes de tudo o que se tinha sucedido, e esperava que assim continuasse por muito tempo.

- Já é tarde para tomar uma xícara de chá. - Ringo constatou, sentada num dos bancos estofados da loja, cansada. Passara a ser responsável pelas limpezas e por parte do atendimento a clientes.

A ivoriana tinha-lhe a dever muito, mais talvez do que esperava algum dia poder retribuir-lhe. Depois de chegar novamente à cidade, viu-se a precisar de mais alguém que a ajudasse a restaurar a loja e a torre. Mesmo que o edifício não tivesse sido danificado, havia vidros partidos a substituir, montras para refazer e uma camada de pó espessa para limpar.

Além disso, a rapariga-espírito revelara ser uma boa companhia, algo que, para Cassidy, era novidade. Passara a ter uma nova confidente, alguém com que podia falar, não importava o dia ou a hora. E até aquele momento não tinha tido nada como aquilo. Mesmo que tivesse dias em que, irritada, quisesse estar completamente só, talvez não abrisse mão tão depressa daquela companhia.

- Não é tarde. É sempre boa hora para tomar chá. - Mas, por muito que algumas coisas mudassem, continuava a manter velhos hábitos. No início custara-lhe voltar à velha rotina, e até dera por si a tentar cheirar o seu próprio hálito, apenas para saber se cheirava assim tanto a chá de canela.

Saíram do estabelecimento, trancando a porta. No horizonte, o sol começava a pôr-se, espalhando uma linha rosada entre o céu e a terra. Parecia o prenúncio de algo que nenhuma delas sabia dizer o quê. E prosseguiram, enterrando os pés na falsa neve, que rangia sob o seu peso. Cada passada ficava marcada, impossível de apagar. E deu por si a sentir pena.

Pena de não ter ficado para trás, e escolher um caminho talvez mais interessante, cheio de mais novidades ainda. Saudades da pequena vidente, já não tão pequena assim. Ainda se correspondiam por correio, e por ela ia mantendo contacto com aquele mundo distante. Paladina também tinha retornado à sua normalidade, assim como todas as outras cidades. A guerra civil assemelhava-se, agora, a um pesadelo distante, ao qual ninguém queria retornar. Seria quase possível dizer que estava tudo bem, mas ainda haviam as consequências que tinham sido deixadas para trás. Feridas ainda abertas, lágrimas ainda por correr.

Estava outra vez à frente da pastelaria, e um arrepio correu-lhe a espinha. Naquele dia também tinha sido assim, também tinha pardo a olhar para a montra de letras garridas e de doces de chocolate e morango. E podia julgar que atrás de si estavam exactamente as mesmas crianças, a brincarem às guerras de neve.

- Tens dinheiro? - Ringo apontava para um par de profiteroles de chocolate suculentos, com um brilho nos olhos. Cassidy anuiu, e as duas entraram no ambiente quente e perfumado a bolos da Melaria.

Sentaram-se numa mesa do canto, ao lado da montra e distantes das outras. Antes todas as pessoas a olhavam de lado quando ela entrava, como se não passasse de mais uma desprezível. Mas agora a maioria olhava quando as duas passavam, dando cotoveladas e cochichando com o vizinho. Nem sempre eram coisas boas, mas era melhor do que nada. E, de facto, o novo rei de Paladina fizera-lhes o grande favor de anunciar toda a história para a Galésia inteira, e não apenas para mia dúzia de jornais locais. E isso suscitava inveja.

- O que vai ser desta vez? - Mitsu vinha, como sempre, atende-las. E, por vezes, chegava a ficar sentada com elas a falar sobre qualquer novidade do bairro. A loira era extrovertida, além de saber um pouco mais por ouvir os cochichos da pastelaria.

- Duas xícaras de chá, e profiteroles de chocolate. - Ringo fazia o pedido, com um sorriso rasgado, e a loira apressou-se a servi-las. Parecia estar tudo a correr bem, como numa tarde igual a tantas outras. Na verdade, parecia estar tudo a correr bem até demais.

- Afinal estavam aqui! - A voz de Bill chegou-lhes aos ouvidos, acompanhada pelo sino pendurado na porta da pastelaria. Trazia o saco com o correio vespertino, e tinha dificuldade em despregar os olhos do relógio de pulso que trazia, com uma elegante correia em couro e bordada a prata. Que tinha sido presente das duas.

Sentou-se ao lado das duas, estafado. Mitsu voltava com uma bandeja, e aproveitou para se sentar também à conversa. No entanto não havia muito para dizer, além dos habituais comentários aos jornais e fofocas da cidade. E que nem sequer eram muitas. Bastavam vinte minutos e estava tudo dito.

- Nofrure não mandou mais nenhuma carta. E já passaram duas semanas. - Ringo sussurrou, para que mais ninguém se apercebesse da conversa. Mas Mitsu já se tinha ido embora, para atender outros clientes, e Bill estava distraído a vasculhar o saco com as últimas cartas do correio vespertino.

- Não é grave. Só não deve ter nada para dizer, e por isso não mandou nada. - Tentou confortá-la, embora achasse que, se fosse ela, não seriam aquelas palavras que a acalmariam. Não depois de tudo pelo que já tinham passado juntas.

E quem diria que não rebentaria uma guerra amanhã? Ou noutro dia próximo, sem aviso, que os voltasse a envolver em opressão ou que os separasse para sempre? Quer fossem mais aspirantes a reis, deusas com seguidores psicopatas ou magos, possuídos ou não possuídos, nada lhes dizia que continuaria tudo intacto para o resto da eternidade. E tanto as Máquinas como a ganância existiriam sempre, talvez escondidas, à espera de mais uma oportunidade.

E a pensar nisso, deixou as memórias escorregarem até atingirem o fundo, onde guardava tudo o quanto se lembrava do irritante Rudolph. Prometera a si mesma evitar tocar naquele assunto a qualquer custo, porque ainda tinha vontade de lhe apertar o pescoço. E chegava a sonhar com o fatídico momento em que voltaria a pôr-lhe as mãos em cima. Mesmo que não o odiasse.

O sininho da porta voltou a tocar, indicando que mais alguém tinha entrado, e algumas das vozes calaram-se. Os passos eram familiares, mas não os atribuiria a ninguém precipitadamente. Tinha medo de estar enganada.

Preparou-se para se virar e encarar de frente quem quer que fosse.



Fim



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