Capítulo 25
Primeiro dia do resto da vida
Quando acordou, sentiu a cabeça pesada, e nem conseguia abrir os olhos. Estava confortável ali, como uma criancinha mimada, como se não houvesse tempo ou problemas. E só por pensar nisso as memórias voltavam-lhe à cabeça, assim como as imagens do relógio espatifado na parede e Annouk. Agora sentia-lhes a falta, uma vez que tinham sido os seus únicos verdadeiros amigos, que se conheciam há tanto tempo.
- Já passou uma semana, senhora. Bom vê-la de olhos abertos novamente. - Não pôde evitar sorrir ao ouvir aquela voz tão presente nos seus dias. Teve vontade de pular da cama e agarrá-lo, mas contentou-se em abrir os olhos e estender-lhe a mão para que pousasse na sua palma.
Estava deitada numa cama de lençóis de linho grosso e branco, numa divisão que se assemelhava a uma enfermaria. Ao seu lado, encostados a uma parede, estavam dois biombos, e no seu lado direito havia uma mesinha de cabeceira com ligaduras e um candeeiro a óleo.
- Já passou uma semana, dizes tu... - Começava a juntar dois mais dois. Lembrava-se claramente da máquina, e do que acontecera no seu interior. Ficara esgotada depois de todo aquele processo, sem falar de que fora alvejada abaixo das costelas. A zona ainda estava dorida, e enfaixada.
A porta abriu-se, deixando entrar a pequena sibila. Mas Nofrure já não parecia assim tão pequena, agora que envergava um pesado manto verde, bordado a ouro e decorado com pérolas. Pela riqueza da vestimenta, era fácil supor a qual cargo ela tinha sido elevada.
- Estivemos preocupados durante toda a semana. Aconteceram imensas coisas... bem, nem tão imensas, mas ao menos já não há guerra. - Falava pelos cotovelos, mas as mãos estavam a tremer. Sentou-se, ainda com alguma dificuldade, passando a mão pelo tronco, ligado.
A porta abriu-se novamente, deixando passar Mitsu, Ringo e Bill, enquanto uma noviça ruiva e furiosa, que tinha estado a vigiar a porta até àquele momento, reclamava da falta de calma sentida pelos visitantes. Porém era empurrada, com a maior das facilidades, por eles, que se precipitavam para aquele espaço e só pararam atrás de Nofrure, que abrira os braços.
- Calma! - A mestra tentou impor a ordem, mas era difícil saber quem é que estava mais nervoso.
- Calma uma ova! Ela foi baleada, não acorda há uma semana e nós queremos... - Mitsu ia começar já a desbobinar um longo rol de preocupações, mas Bill, já antevendo a desafinação dela, tapou-lhe a boca.
- Nós só queremos vê-la. - Ringo completara, ainda de olhos fixos na ivoriana, que começava a sentir a cara a ferver. Estava com demasiadas atenções fixas em si, para não falar de uma pressa urgente em ir resolver um pequeno assunto.
- Agora está tudo bem, não há pressa. Não há mais Demergon, ele desfez-se em cinzas. - Nofrure falava com alguma malícia na voz e um largo sorriso matreiro a iluminar-lhe a face.
- Mesmo assim, quero voltar para casa. E quanto mais depressa, melhor. - Cassidy levantou-se, sentindo a superfície de mármore frio debaixo dos seus pés. Olhou em volta, encontrando os seus óculos em cima de uma pilha de roupa nova.
- Receava que dissesses isso. Então não nos voltaremos a ver tão cedo. - Havia um pouco de mágoa na voz da sibila, mas era como se ela já soubesse, e apenas não quisera acreditar por teimosia. - Mas acho que Ringo vai contigo. Não sei. E agora vão todos sair, para ela se vestir, e ir tratar das despedidas.
Dissera a última ordem com um pouco mais de alento, e começou a empurrar todos para fora da enfermaria, deixando a morena a sós. Esta pouco demorou a vestir-se, embora sentisse uma ligeira fraqueza e lentidão nos membros. O novo conjunto já não era todo preto: o casaco era roxo, assim como os sapatos, e o rubi da gola fora trocado por uma ametista. Devia ter sido uma ideia de Nofrure, mas não era má. Já vira conjuntos piores.
Fora da enfermaria entreteve-se a ver os frescos e azulejos do longo corredor, aberto a um pátio com uma fonte complexa trabalhada em pedra. O local parecia emanar um pacifismo aparente, como se nenhum dos últimos acontecimentos da cidade tivesse penetrado no interior daquelas imaculadas paredes.
- Como é que estás inteiro? - Acabou por perguntar, e mais uma vez o relógio lhe saía do bolso, cheio da mesma vida própria que sempre tivera.
- Aquele bêbado mal-educado arranjou um relojoeiro para me consertar. De resto somos os dois alma da mesma alma. - Respondeu-lhe, e ela estreitou os olhos. E, para o cúmulo, no fundo do corredor estava um vulto, de garrafa na mão e com uma comprida trança.
Movida por uma fúria desmedida, aproximou-se dele a largos passos. Tudo naquela figura lhe dava um ódio que a corroía como fel, e tinha passado demasiado tempo a cogitar naquele momento. Ele nem teve tempo de reacção quando Cassidy lhe lançou as mãos ao pescoço e começou a apertar, contra a parede. Rudolph arranhava-lhe os pulsos, a gemer, mas ela não se importava.
- Cretino! Tu disparaste! - Teria continuado, mas de repente a ideia de acabar com a raça dele já não tinha assim tanta graça. Talvez pudesse poupá-lo, afinal ele também já tinha tido o suficiente por uma vida. E, então, soltou-o, lentamente, deixando-o cair no chão, a massajar a garganta.
- Eu... lamento muito pelo seu pai. - Declarou, inexpressiva, virando-lhe as costas. Não havia mais nada a tratar ali e nem sabia mais o que dizer, para ela a despedida estava feita.
- Ele não era meu pai. Pelo menos não mais do que biologicamente. - Sentiu uma das mãos dele no ombro, e a boca secou-se novamente. Tinha acabado de o tentar estrangular e ele ainda tinha aquela confiança toda.
Virou-se, e estavam novamente cara a cara. Ele era um pouco mais alto que ela, e isso irritava-a. Era exactamente uma versão mais jovem do pai, e isso ainda a irritava mais. Mas era ele, e não havia nada a fazer quanto a isso.
- Estamos prontos! - Mitsu surgira do outro lado do corredor. A morena fechou os olhos e deixou que tudo aquilo se desvanecesse. Era agora, ali naquele momento, que decidia qual o rumo a seguir.
Sem dizer mais uma palavra, virou-lhe as costas e foi-se embora. Tão rápido como a tinha visto surgir, naquela rua, via-a agora a desaparecer. E nem, ao menos, podia estender a mão para a alcançar e parar.
- Adeus. - Ela sussurrou para o vento, e ele que carregasse a sua palavra final.
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