Capítulo 24
Altas esperanças


Dizia-se que a esperança era a última a morrer e, naquele momento, esta definhava face à imagem do mago, que irradiava tanto poder quanto uma pequena super-nova. Paralisados, como se tivesse os pés pregados ao chão, Rudolph, Nofrure e Ringo não eram capazes de desviar o olhar. Demergon pareceu gostar daquela atenção focada em si, pois tinha largado a máquina e, finalmente, voltava-se para eles, como um predador contempla as suas vítimas e brinca com a comida antes de a devorar.

- Vamos entrar numa nova era. Uma era em que a morte foi banida, em que não haverá mais sofrimento. Um mundo que eu irei governar. - Parecia, realmente, acreditar naquilo que dizia, e perante toda a situação não era possível negar.

- O inferno passa a ficar aqui, e não separado de nós, grande coisa! - Nofrure, não sabia onde tinha arranjado coragem para falar, mas as palavras pediam-lhe para serem ditas e ouvidas. - Podemos continuar vivos, ou algo próximo dessa existência, mas estamos condenados a mergulhar em trevas.

Mas Demergon limitou-se a encolher os ombros, arrogantemente, e riu-se da sua cara. E, novamente, voltou a sua atenção para a pirâmide que irradiava energia à sua frente. E com um ar de júbilo, encostou as duas mãos às paredes de pedra e metal da máquina, sem que nada lhe acontecesse. E, durante alguns segundos que pareceram passar em câmara lenta, limitou-se a sorrir, como um maníaco. Era um sorriso morto, cínico, que causava mal-estar.

De repente, um nome apareceu, gravado numa das pedras da parede, numa caligrafia fina e floreada, que era apenas usada em campas. E as linhas desse nome espalharam-se pelo resto da superfície, até tocarem nos seus dedos. Com um espasmo, os olhos dele abriram-se, lacrimejando, e agora era visível o esforço que ele fazia para não gritar.

A pele que estava em contacto com a pedra começou a fumegar e a empolar, como se estive em chamas. Demergon tremia, e estava a ficar com dificuldades em respirar. Com esforço, conseguiu soltar-se da parede que antes agarrara, cheio de ganância, mas o mal já estava feito e era irremediável. As mãos estavam carbonizadas até ao osso, e a queimadura alastrava-lhe pelos braços até ao resto do corpo. Era uma visão agonizante e repugnante. Antes de cair no chão e desfazer-se em cinzas, uma figura de fumo escuro soltou-se, a tentar fugir do corpo amaldiçoado. Mas, sem sorte, acabou por se desfazer num pó fino, com um grito abafado, e espalhou-se no ar.

Os três suspiraram de alívio, mas aquela sensação de esperança renovada depressa se desfez. A máquina ainda continuava activa, vertendo energia para o exterior, e não sabiam como a parar.

*****

Estava a flutuar no meio de um enorme espaço branco e vazio quando a viu novamente. Não tinha mudado em nada desde que a vira no abismo do templo, tinha exactamente o mesmo aspecto. Os cabelos fluidos confundiam-se com o vestido, da mesma cor, e parecia imaterial. As únicas cores que quebravam a brancura eram o corpete verde, a pele, a tiara de ouro baço e os olhos amarelos e límpidos de serpente. Era ainda mais bela ao vivo do que na gravura do livro.

- Basttete? - A sua voz estava fraca e estranha, talvez por estar imersa naquele estranho lugar líquido.

- Estou muito orgulhosa, na verdade, nem sei bem o que dizer. Deu tudo certo, mais do que imaginava.

- Mas... o quê? - Perguntou, ainda mais confusa do que antes. Basttete estendeu-lhe uma mão e pousou-a na sua face, mas não sentia nada. Era como se ela fosse um fantasma.

- Tudo começou por causa de Salcelion e da suposta profecia. Estavam errados, e assim ele continuou, até encontrar um corpo que pudesse hospedar. - A sua voz era calma e agradável, como a de uma mãe que não tivera.

- Demergon! - Interrompeu-a, na ânsia de soltar um pouco da sua raiva contra aquele nome.

- Exacto. E assim reiniciou a sua jogada. Eliminou todos os velhos Sacerdotes, conquistou um poder relativo em Paladina e reactivou a máquina.

- Então... ele conseguiu?

- Eram tudo altas esperanças. Ele esqueceu-se que não podia tocar no solo que lhe envolveu o corpo, e as pedras da Pirâmide foram extraídas do interior do antigo cemitério de Paladina. Ao fazê-lo, condenou-se a si mesmo a desaparecer, e deixou para trás um simples corpo humano que não consegue sobreviver à carga energética da máquina. - A voz continuava calma e imperturbável, mesmo face a semelhante situação.

- E tu sabias que isto aconteceria. - Concluiu, com a maior das simplicidades. A Demónio não tivera qualquer problema em usá-la como uma peça, num jogo perigoso.

- Sim e não. Nunca se sabem quais serão as verdadeiras proporções, e, mesmo como mero peão, ainda és livre de escolher.

- E agora? Isto vai parar? - Perguntou, depois de um minuto de silêncio, mas tinha o receio de que fosse tarde demais, ou que, como Demergon estava morto, ninguém a soubesse parar.

- Alguém a parará. Tenho a certeza.

- Voltaremos a ver-nos? - Não pôde evitar perguntar, enquanto a figura, mais uma vez, se afastava.

- Talvez, um dia. Mas não o apresses, nem desejes. A partir de agora, vive as tuas próprias esperanças até ao último suspiro. És livre de o fazer.

Afastou-se até desaparecer, na imensidão que lhe começava a cegar os olhos. Estendeu a mão, em vão, mas não deixou de reparar que a manga do casaco já não era preta, mas violeta, e verde, e rosa. As cores mudavam, ao som de uma melodia psicadélica distante, como num caleidoscópio. E, de repente, sentiu uma aguilhoada de dor no corpo, como um ferro em brasa dentro da carne. E um outro líquido jorrava, de cor indistinta. Os olhos começaram a ficar cansados, e as pálpebras fecharam-se. Regressava a um sono vazio.

Lá fora, a máquina parara, de súbito, a morrer aos poucos. Os rugidos e as luzes cessavam, lentamente, e um pequeno furo, de lado, fumegava. Rudolph ainda empunhava o pequeno revólver.

Abriram a porta, sem cerimónias, e uma água de cheiro a éter jorrou para fora, como uma corrente. Rezava para que tivesse sido suficientemente baixo.

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