Capítulo 23
Cascatas de luz


Hesitou no primeiro passo que dava para o interior da máquina em forma de pirâmide. Mas evitou olhar para trás e deparar-se com os olhares de todos eles, a preocuparem-se demasiado com ela. Se olhasse para trás, veria Nofrure a chorar, e Ringo a chamá-la, sem que, no entanto, algum som se escapasse da sua boca. Tinha, subitamente, ficado surda, e nem era capaz de ouvir os seus próprios passos sequer. E Rudolph estaria como sempre esteve, hirto, com cara de choque, e impotente. Por momentos sentiu vontade de voltar a cruzar o olhar, mas não seria justo submetê-lo àquilo.

Voltar atrás e ouvi-los ia dar-lhe medo, e razões para se acobardar. E não podia fazer isso agora, que tudo dependia dela. Sentia-se como se tivesse de novo o olhar de Basttete fixo na sua nuca. Engoliu em seco e entrou, contando os passos até algo semelhante a um trono, que estava no centro. Demergon fechou a porta atrás de si, com um estrondo, e sentiu-se inegavelmente presa. Só não estava totalmente imersa na escuridão porque havia alguma luminosidade, semelhante a pó, agarrada às paredes.

Sentou-se, pois parecia-lhe a única coisa a fazer. E, assim que lhe tocou, esta acorrentou-a. Cassidy sentiu-se a gelar, mas manteve a calma. Tinha de se concentrar e activar a pirâmide, embora, sem a fonte, não soubesse como. À sua frente estava um pedestal, com um suporte especial para a esfera, mas este já não era necessário. A fonte estava irremediavelmente perdida nas entranhas do Monte de Fogo, corroída pela lava.

Em vez de usar esse recurso, agarrou os dois manípulos que estavam inseridos nos braços da cadeira de pedra. Não sabia o que eram, mas algo lhe dizia que, se fizesse aquilo, ia conseguir o pretendido. Estes pareceram reagir ao toque e uma estranha corrente começou a passar pelo seu corpo, causando algum desconforto. Mas não era letal, apenas lhe deixava as pontas dos dedos dormentes. Não sabia o que estava a fazer, assistia a tudo como se já não fosse ela mesma, e sim apenas uma espectadora alheia. As partículas de luz das paredes animaram-se, e começaram a jorrar, como cascatas de água. Lembrava-se delas, dos seus sonhos, e se não estivesse numa situação tão crítica, até teria admirado os padrões brilhantes que se formavam no chão, há medida que aquela luz líquida invadia o compartimento, como uma inundação.

Como água, começou a invadir cada canto, envolvendo-a por completo. Era morno, e agradável, e não se sentia a afogar, embora a cartola já flutuasse acima da sua cabeça. Trazia-lhe uma sensação calma, e começava a adormecer, lentamente, embalada pelos movimentos suaves daquele fluído. As mãos afrouxaram, e a cabeça caía para o lado, mas nem por isso os êmbolos da máquina pararam. Apenas os olhos ainda mantinham o que restava do seu brilho, e mesmo esses se começaram a fechar. O seu último pensamento foi em como queria ter tido mais tempo, que não tivesse passado sozinha, na sua loja. Tinha a sensação de ter uma lágrima a descer-lhe a face, embora isso lhe parecesse impossível, no meio daquela água luminosa, e aquele sabor peculiar, de vodka e mel, mantinha-se presente na sua boca até ao último momento.

*****

Do lado de fora, quando a porta se fechou, Nofrure e Ringo esperneavam com quanta força tinham para se libertarem das mãos gigantescas que as impediam de se mexer. Rudolph, que era o único que estava livre, precipitou-se sobre a porta, arranhando a pedra e o metal. O velho sacerdote ignorou-o, voltando a sua atenção para o painel exterior da pirâmide. Algumas luzes tinham-se acendido, e agora era possível ouvir-se algo semelhante a êmbolos, por baixo do chão que pisavam.

O equipamento parecia reagir a uma nova energia, que ele não teve dificuldade em reconhecer como sendo dela. E não havia nada ao alcance dele que impedisse que aquela vitalidade fluísse, livremente, concentrando-se nas paredes da pirâmide. Quando o moreno pousou apenas um dos dedos sobre elas, um choque atirou-o para longe, indo estatelar-se quase aos pés de Nofrure. Mas, nem mesmo com os gritos dela o sacerdote se voltou para eles, demasiado atarefado com o painel com uma luz que piscava. Com um sabor metálico e queimado na boca, Rudolph levantou-se.

- Não lhes toques! Nenhum ser humano resistiria a essa carga de energia. - A pequena sibila avisou-o, assim que o viu novamente a avançar na direcção da porta selada. Ele parou, fitando o homem que se dissera seu pai.

- Ele consegue. - Teimou, e, de facto, era verdade. Demergon conseguia suportar aquele nível de energia, aliás, estava a absorvê-la, radiante. Parecia o fim.

- Então não é inteiramente humano. - Ringo comentou, amargamente, e isso apenas contribuiu para uma maior sensação de mal-estar. Se nem sequer conseguiam derrotar Demergon como sendo, simplesmente, um mago, nem queriam imaginar como seria se ele fosse algo mais.

No entanto, antes que pudessem dizer mais alguma coisa, as duas mãos sólidas que ainda restavam soltaram-nas, e as duas caíram com um baque surdo no meio do chão de mosaicos. De seguida abraçaram-se, olhando em volta. Para além do corpo de Manfred, da princesa atada à cadeira, Demergon, a máquina e eles, não havia mais nada nem ninguém. E aquilo tinha dado uma ideia a Rudolph. Com as mãos a tremer, desamarrou a princesa, que já tinha os pulsos em sangue de ter estado tanto tempo presa.

- Vossa Alteza, precisamos de ajuda. - Não sabia exactamente como se dirigir a um membro da realeza, era a primeira vez que estava frente a frente com um. Tentou falar num tom polido e educado, mas o ligeiro tremor e rouquidão denunciavam-no. - Precisamos que fuja e avise alguém, depressa.

- Falo-ei. - Curvou o pescoço numa ligeira vénia, e, sorrateiramente, escapou pela porta por onde Nofrure tinha entrado. Nem sequer tinha sido necessário encobri-la, pois o sacerdote estava demasiado abstraído para reparar neles.

- O que achas que ele vai fazer agora? - Ringo perguntou, e os três olharam-no, quase horrorizados. A energia concentrada, num remoinho, à sua volta, era tão intensa, que brilhava. Junto a ela havia um fino fio de fumo, de um matiz entre o vermelho acastanhado e a cor vinho. Era algo terrivelmente parecido com uma essência humana. Cada vez mais os acontecimentos se precipitavam num único desfecho, ao qual só podiam assistir. Entre eles e Demergon havia uma barreira que nenhum era capaz de transpor. Nofrure rezava por um milagre, alguma intervenção que os ajudasse. Mas era o fim.

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