Capítulo 22
Revelações do passado
Tinham sido levados até uma sala ampla, com uma pirâmide de pedra clara e metal, rodeada por painéis de botões luminosos. O local cheirava a éter, metal quente e produtos químicos, e, sentada numa cadeira encostada à parede estava uma mulher desacordada, com um longo vestido branco e longos cabelos de um tom loiro escuro. Ao lado dela, um homem moreno, de barba curta, mexia, atarefado, num daqueles painéis.
Apenas quebrara a sua concentração para ver quem tinha acabado de chegar, e abriu um sorriso mesquinho e ganancioso ao vê-la. Se, até àquele ponto, Cassidy não sentira muito medo, então a partir daquele momento podia começar a preocupar-se, seriamente, em se manter viva. A loucura visível nos olhos de Manfred só não ultrapassava a de Demergon por pouco.
- Está tudo pronto. Em breve estaremos a governar o mundo inteiro, e imortais. - Parecia extasiado com aquela visão, assim como o falso sorriso de Demergon aumentou ainda mais. Seria horrível imaginar aqueles dois a governarem Paladina, quanto mais o planeta inteiro.
- Vocês vão destruir tudo! - Só naquele momento a princesa se manifestou. Os olhos fitavam, irados, um e outro, e cuspia cabelos da boca. Não era, propriamente, uma visão que se atribuísse a mulheres da realeza.
Mas, antes que qualquer um deles lhe respondesse, a porta voltou a abrir-se e a jovem de longos cabelos negros e trajes do templo entrou, ofegante. Ringo quase chorou de felicidade ao rever a velha amiga, e condoeu-se ao ver o estado dela. Tinha vários golpes na cara, nos braços e nas pernas, o vestido estava rasgado e tinha algumas nódoas negras espalhadas pelo corpo.
- Os prisioneiros escaparam. - Manfred sibilou, e uma mão de pedra surgiu do chão, aprisionando Nofrure. Demergon posicionou-os todos numa fila, lado a lado, e ninguém se atrevia a abrir a boca.
- Não há nenhum problema. A partir de agora não farão qualquer diferença. - O antigo sacerdote aproximou-se da máquina, antes de se virar para os quatro prisioneiros.
- Então apressa-te a metê-la lá dentro! - Manfred mal podia conter a sua ansiedade e o seu nervosismo, e era fácil saber porquê. A mão de ar sólido que prendia Cassidy foi a única a afrouxar o aperto, deixando-a escorregar para o chão de mosaicos lisos e frios.
- Só por cima do meu cadáver! - Rudolph nem sabia onde arranjara forças para se soltar e de se meter entre ela e Demergon, mas era possível ver-se a fúria como um fogo estampado na sua face. Manfred apontou-lhe uma espingarda, que tinha estado escondida até aquele preciso momento.
- Sai da frente, deixa-me fazer-lhe a vontade. - Gritou ao sacerdote, mas este não se moveu.
- Não o vais fazer. - Respondeu-lhe, e com um estalar de dedos a arma desfez-se em areia negra. O outro olhou-o, incrédulo, como se quisesse que aquilo não passasse de uma piada de mau gosto.
- Porquê? Você nem se importa com o bem-estar do resto do mundo, mas comigo é diferente? - O moreno inquiriu-o, de olhar acusador. Era sinistro demais, aliás, era impossível um homem daqueles querer protegê-lo exclusivamente.
- Cala-te. - Ordenou-lhe, azedo, antes de se virar para a máquina e abrir uma porta, de tamanho suficiente para um adulto encorpado entrar. No entanto ele não ia desistir assim tão cedo.
- Vai matar mais uma pessoa hoje, além de ter morto todos aqueles sacerdotes no templo, então porquê eu? - Perguntou mais uma vez, e mais uma vez Demergon continuou a ignorá-lo, atarefado com os painéis cheios de botões e manivelas.
- Porquê? - Teimou, aproximando-se mais.
- Não fales do que não sabes. - Obteve como resposta, num silvo baixo e venenoso.
- Eu quero saber porquê!
- Tu és o meu filho! - E depois fez-se um silêncio mortificado. Nem mesmo Manfred se atrevia a abrir a boca.
Cassidy, Nofrure e Ringo não continham o espanto. A ivoriana não tinha reparado antes naquele pormenor, mas era extremamente parecidos. Tinham o mesmo cabelo, o mesmo rosto fino, olhos de um tom similar e a mesma expressão habitual de serenidade séria. Além de ambos lhe terem dado problemas.
Para ele, aquilo era um tremendo choque. Estava a olhar para o homem que o abandonara, a ele e à sua mãe, quando ele tinha apenas sete anos. Estava frente a frente com aquele que lhe atormentara o resto da vida com a sua ausência, o verdadeiro causador da doença da sua mãe, aquele que jurara matar, em sonhos. Era para isso que mantinha a única bala que tinha dentro do revólver.
- Seu... cretino! Abandonou-nos... - Foi a única coisa que lhe conseguiu gritar na cara, não tinha mais voz ou forças para continuar. Parecia-lhe tudo um imenso pesadelo.
- Tive de vos abandonar ou não cumpriria os meus objectivos. - Manteve a voz fria e insensível, não demonstrando qualquer afecto pela família. Este tinha-se perdido há muito, entre memórias e palavras vãs que não voltariam.
- Monstro! - Precipitou-se sobre ele, as mãos voando em direcção à sua garganta, à espera de a encontrarem e apertar até estrangulá-lo. No entanto ele foi mais rápido, e com um estalar de dedos projectou-o contra a parede. Deslizou, aterrando no chão com um baque surdo e tentando recuperar o fôlego. Um fio de sangue escorria-lhe pelo canto do lábio.
- Eu disse-te que era um empecilho, livra-te dele! - Mas, no minuto seguinte, Manfred também era atirado contra a parede, e ouviu-se o som desagradável de ossos a estalarem, antes dele cair no chão, imóvel e de olhos vidrados.
A princesa gritara, e Nofrure virou a cabeça para o outro lado. Não tinham qualquer hipótese contra aquele homem insano, e isso deixava-a desesperada. O desejo de salvá-los a todos já não era superior ao seu medo irracional, e o coração parecia ter subido até à garganta, num esforço inútil para sair. Tinha vontade de vomitar e chorar.
- E agora, se fizeres o favor, entra. - Mas Cassidy nem o ouvira. Ouvia as palavras de Basttete, que ecoavam na sua cabeça, a dizerem-lhe para entrar. Estava a fazer o necessário, apenas o necessário para terminar tudo aquilo.
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