Capítulo 21
Peões de um jogo
A sibila do Templo de Tanageria estava deitada num colchão velho, duro e malcheiroso, ainda acordada. Desde que fora capturada que o sono só chegava depois de mais uma sessão de elixires para a impedir de gritar. Mesmo assim, Nofrure estava torpe e lenta, e não sentia as mãos e as pernas.
Junto a ela estava um grupo extenso de prisioneiros. A Rebeldia de Ivoria, liderada por Mitsu, Bill e Jazan, o vizinho da torre do relógio, o seu mestre e todos os seus colegas e professores do templo, sacerdotes e aprendizes de outros templos e alguns desconhecidos. Todos eles suspiravam e procuravam a mesma coisa: uma fenda para a liberdade. Tinham vasculhado cada centímetro das paredes, mas nada encontraram.
Naquele desespero, a única coisa que podia fazer era rezar para encontrar uma solução, e depressa. Sonhara com a captura do pequeno grupo, e agora temia, não pela segurança delas, mas pela segurança do planeta inteiro. Só há pouco percebera as intenções de Demergon, durante mais um dos seus interrogatórios.
Há décadas atrás, antes sequer dele próprio nascer, havia um templo que prestava culto à demónio Basttete, liderado pelo sacerdote Salcerion. Estes acreditavam que, um dia, Basttete forneceria poder suficiente para governarem o planeta e fechar a porta do submundo. A imortalidade, seria, então, uma realidade, e não um sonho vão. Mas a pressão contra o culto e as profecias que indicavam que as condições para tal só estariam reunidas num futuro distante, o grupo encontrara o seu fim com suicídio em massa.
Demergon, no entanto, reunira todas as condições, e estava disposto a, custasse o que custasse, alcançar o poder supremo, sem perceber que, assim que vedasse o submundo, o chão que pisavam tornar-se-ia no próximo mundo da morte. Não a estavam a impedir, estavam a trazê-la para mais perto ainda.
De repente, uma brisa suave soprou-lhe na cara. Estivera tão concentrada nos seus pensamentos que não reparara naquele vento, e agora que o sentia, perguntava-se por onde entrava. Afinal, correntes de ar só indicavam uma única coisa: saída.
Rastejou, sempre a senti-la na cara, até um canto escuro com mais colchões velhos. Ignimo reparara nela, e também se aproximava, expectante. Ali sentia-se mais a brisa fresca, que os fez tentar afastar os colchões para encontrarem a entrada. Depressa os outros se juntaram à tarefa, afastando tudo para longe, atulhado ao acaso, até revelar um buraco largo na parede.
As masmorras eram velhas e, ao que parecia, a estrutura já sofria com os sinais do tempo. Numa tentativa desesperada, os oficiais de Paladina que os vigiavam tinham tapado o buraco com o que tinham à mão, ou seja, os colchões que não estavam a ser usados. Mas aquilo não tinha sido suficiente para pará-los na sua busca por uma saída.
- Acho que é seguro. - Comentou, espreitando. Dava acesso a um pátio, onde guardavam as carruagens de apreensões e capturas. Seria o suficiente para saírem dali enquanto podiam.
Os outros membros do seu templo foram os primeiro a sair, seguidos pelos desconhecido, pelos rebeldes e por ela. Uma vez fora da prisão, enquanto todos queriam fugir ela só pensava em encontrar uma forma de entrar na sala onde Cassidy e Ringo estavam. Mas quando revelou que ia ficar em vez de partir, tentaram convencê-la a ir.
- Não há nada que possas fazer, nada. Vem connosco, arranjamos-te um esconderijo. - Mitsu puxou-lhe um braço, em direcção à sua carruagem, mas ela recusou. Não podia simplesmente abandoná-los.
- Eu tenho de ficar. - Respondeu-lhe, abanando a cabeça. Não queria alarmá-los com o possível perigo que Cassidy corria.
- Ela está aqui, não está? Ignimo disse-nos que tens visões. Ela está em perigo, é isso? - Definitivamente, a loira era mais esperta do que parecia. O mestre tinha-se aproximado por trás dela, curioso com a conversa. Nofrure apenas anuiu com a cabeça.
- Eu conheço uma entrada até lá. - Ignimo pousou uma mão no seu ombro, e apontou para uma porta entreaberta, no fundo do pátio. Parecia que também lá queria ficar, com ela.
- Bem, vejo que não vos posso convencer do contrário. - Mitsu sorriu amargamente, mostrando preocupação, e talvez até uma pequena ponta de admiração pela coragem deles. - Vou levá-los daqui para fora. Espero ver-vos aos dois, em breve. Que os deuses vos acompanhem.
Saltou para o lugar com condutor, e incitou os dois cavalos. Os seus companheiros já tinham aberto o portão, e saltavam para o seu lado. Antes da carruagem sair, seguida pelas outras, acenaram-lhes. Nofrure sentiu duas lágrimas a descerem-lhe a face, e limpou-as nervosamente logo a seguir. Eles iam ficar bem, e regressar todos a casa.
- Por aqui. - O mestre guiou-a até à porta. Quando entraram, apercebeu-se finalmente que estavam no edifício da Universidade. Era ali que se encontrava a máquina, e iam pô-la a funcionar.
De repente, atrás deles, surgiram mais guardas. No entanto, estes eram diferentes: pareciam mortos-vivos, descarnados e com alguns ossos à mostra. Não tinham cara, apenas dois buracos pretos e enrugados no lugar dos olhos. Aquela visão dava-lhe vómitos, e uma onda de choque e medo percorreu-lhe a espinha.
- Corre, Nofrure! É sempre em frente, é a primeira porta de laboratório que encontrares! - Ignimo empurrou-a, enfrentando os guardas com todas as suas forças. Obedeceu-lhe, relutante, sempre a olhar para trás. O seu mestre não teria qualquer hipótese contra eles.
Já tinha sido derrubado, e ela parou a olhar para ele, com um grito. Um dos guardas segurava, em riste, uma adaga suja. Podia ver-se o terror estampado na face dele, e ela tapou a boca com o horror. Nem reparara que voltara a chorar silenciosamente.
- Nofrure... nomeio-te... minha sucessora... no templo. - Declarou, abafado pelos braços dos mortos-vivos. Não gritou quando lhe desferiram o golpe final, mas as pernas dela tremeram ao ver o precioso fluído encarnado a escorrer.
- Não... - Tinha muitas palavras entaladas na garganta, mas o seu único instinto foi correr para longe.
Ao longe viu a porta, e estendeu as suas mãos para a abrir. Do seu interior vinham vozes, e o seu destino aguardava-a ali.
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