Capítulo 2
Carta de infortúnio
Esforçava-se agora por enfiar os dedos dentro de uma caixa de um velho relógio de parede, tentando tirar o mecanismo. À sua frente uma mulher de idade, carregando nos braços um cesto de ovos e fruta, esperava, impaciente, enquanto tagarelava sobre a sua manhã.
- E, sabe como é, ele nunca está atento, nem reparou nas mudanças... - A velha senhora continuava, mas a morena já nem a ouvia. Puxara a cartola mais para baixo, num tique de querer tapar os ouvidos, e tentava fazer com que a remoção do interior do relógio fosse o mais ruidosa possível. Começava a não suportar a tediosa conversa e a voz ofegante da senhora, quando finalmente o pequeno motor se soltou. Tirou-o, com os dedos cortados e oleosos.
A partir daquele ponto bastava mudar o núcleo de quartzo que este regularia. Baixou-se, vasculhando as gavetas à procura de peças. Enquanto o fazia, a campainha voltou a tocar, indicando a entrada de uma outra pessoa. Pescando um mineral de quartzo, ergueu-se, deparando-se com uma beldade, de exóticos cabelos ruivos, garridos, e um sumptuoso casaco de pele. O seu primeiro pensamento foi a perguntar-se se este era largo suficiente para lhe varrer o chão.
- Boas tardes. - Falou, torcendo o nariz à velhota, e erguendo o queixo como se exibisse toda a sua classe.
Pousando algumas das peças, começou a tentar retirar do mecanismo o mineral gasto, sem danificar as rodas. Assim, de cabeça baixa e olhos ocupados, perguntou-lhe, secamente:
- O que deseja?
- Um relógio de pulso, com corrente de prata. Um dos últimos modelos. - Falou, claramente irritada pela pouca atenção que a outra lhe dedicava. Cassidy tinha conseguido mudar o quartzo, e estava agora a reinstalar o sistema dentro da caixa do relógio, conforme o orifício redondo para o mostrador.
- Os mais recentes estão no expositor. - Apontou para a vitrina, para a estante superior, onde as pratas e os ouros brilhavam na penumbra do estabelecimento. A mulher aproximou-se deles, inexpressiva, fitando as correias. Estas, ricamente decoradas, pareciam não satisfazê-la especialmente.
Enfiou a encomenda da senhora idosa dentro de um saco de papel e entregou-lho, recebendo em troca um pequeno saco de couro, com tilintantes moedas no seu interior. Saiu, e a morena não teve outro remédio senão dirigir-se à senhora do casaco de peles, colocando-se ao seu lado, com a chave da montra entalada nos dedos.
- Acho que levarei este. - Apontou um longo e fino dedo, com uma comprida unha, pintada de vermelho, para um relógio de mostrador simples, com os ponteiros cheios de arabescos, e uma correia em prata, num entrançado simples, mas de bom gosto. Ficou com uma ponta de pena, uma vez que não lhe parecia que teria um longo uso para a qualidade de relógio que era.
Abriu o expositor, passando os dedos pelo vidro da tampa. Tirou o relógio, e instantaneamente as garras de unhas vermelhas lho arrancaram das mãos.
- Aqui tem. - Entregou-lhe, nas mãos, um pesado saco de moedas douradas. Tal e qual como Cassidy já suspeitava. Devia ser uma da classe dos Novos-ricos, que esbanjavam dinheiro sem olhar a meios. No entanto nem abriu a boca. Tinha-lhe pago muito mais do que o preço do relógio, mas mais valia aproveitar.
Voltou a sentar-se atrás do balcão, enquanto se atarefava à volta de um relógio de bolso, aberto, mexendo-lhe com uma pinça. Não tinha muita vontade de trabalhar, e isso reflectia-se nos longos suspiros e nas constantes mexidas na testa. Mas ela própria obrigava-se a fazê-lo, pelo menos até que fosse hora de fechar a relojoaria.
- Mas se te incomoda tanto deixa-o para amanhã. - O seu relógio tinha voltado a subir-lhe até ao ouvido, e falava-lhe calmamente.
- Não posso. E para ti é fácil falar, não precisas de comer para sobreviver. - Respondeu-lhe, directa e mordaz, e voltou a sua atenção para o mecanismo que tentava arranjar. Ele voltou a entrar-lhe no bolso, silenciosamente, antes do carteiro, um rapaz nervoso e franzino, entrar, espreitando disfarçadamente para a montra dos relógios.
- Bill. Tarde, mas apareceste. - Desviou as entranhas do relógio para o lado, desistindo de tentar fazer alguma coisa naquele fim de tarde.
- Trago-te uma carta de última hora. Pelos ares que deram deve ser qualquer coisa grave. - Tirou a sacola do ombro e vasculhou-a até encontrar um estranho envelope creme, pesado. Entregou-lho, e ela percebeu a razão do comentário de Bill. Estampado, em grande plano, estava o brasão da cidade de Paladina.
Paladina era a cidade do palácio do rei de Galésia. Portanto esta proliferava em igrejas, grandes monumentos, excelentes universidades e pessoas ricas de famílias tão antigas quanto a própria realeza. No entanto, depois da morte do monarca sem que este deixasse um herdeiro definido gerara um desconforto entre os habitantes. Dois irmãos disputavam o trono, e instalava-se o início de uma Guerra Civil incontrolável.
Abriu a carta, depois de Bill se ter despedido e voltado a sair, fechando a porta. Não era engano, pois vinha endereçado a si. Estendeu o pergaminho, lendo-o inexpressiva. Quando chegou ao fim da carta, a sua cara estava branca como a cal.
“Prezada Cassidy Ridley
É do conhecimento do Tribunal Central de Paladina e da Universidade de Paladina que vossa excelência consta num ficheiro de beneficiários de estudo de inventos em desenvolvimento.
Esse mesmo ficheiro, pertencente a uma pasta marcada pelo laboratório da Universidade de Paladina, está sob recente investigação.
Como consequência vossa excelência será detida por indeterminado período de tempo. Agradecemos que espere a carruagem que efectuará o seu transporte até à Delegacia de Paladina.
Os melhores cumprimentos
Alexander Icarius”
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