Capítulo 19
Desculpas e memórias perdidas
A meio da viagem de carruagem até Paladina, não aguentou mais o olhar baixo e venenoso que ela lhe lançava. Mesmo sabendo que não devia, olhou-a nos olhos, preparado para lhe dizer tudo. Hesitou, pelo choque de olhar para dois olhos amarelados de serpente, talvez por olhar para eles tão de repente, ou pelo que lhe ia dizer. Fosse como fosse, teria de continuar.
- A única razão para eu ter feito aquilo foi para nos salvar a todos. Se mantivéssemos a fonte podíamos usá-la como moeda de troca pelas nossas vidas. - Não esperou que ela o mandasse falar, ou que o interrompesse. Afinal, para ele, parecia tudo tão simples: fizera aquilo por eles.
- Eu acredito. - Ringo respondeu-lhe, ainda branca como uma folha de papel.
- Pois eu não. Não devias ter sequer tentado, era a nossa função destruir a fonte. - Cassidy desviou os olhos. Podia tê-lo hipnotizado e sufocado só com o olhar, mas não o fizera. Era preferível fazê-lo com as suas próprias mãos.
- Mas... - Rudolph tentou argumentar, antes de ser interrompido por ela, numa voz seca e desprovida de emoções.
- Ele não te ia matar, se era isso que tanto te preocupava. Mas se eu me soltar, não te posso garantir que continues a respirar. - A sua vontade de estrangulá-lo era bem visível, muito embora isso não o assustasse.
- Mas ele vai matar-te. - Deixou escapar, antes de fechar os olhos e, mentalmente, recriminar-se por não ter fechado a boca a tempo. Tinha sido tão óbvio, tão estupidamente ridículo. Tinha a cara a ferver, tão quente que seria possível fritar um ovo em cima dela.
- Não vai. Eu vou servir para activar a máquina. - Não pareceu reparar sequer nas palavras dele, mas a sua raiva tinha diminuído visivelmente. Na verdade, estava constrangida, embora não o demonstrasse. Ainda estava tudo muito confuso.
- Como? A fonte é a única que a activa. - Ringo perdera um pouco a palidez, e olhava-a curiosa. A esfera tinha caído no meio da lava, e todos os presentes tinham visto.
- Basttete disse-me. E é o que tem de ser feito. - E, pela primeira vez, teve medo. Pela primeira vez em todos aqueles dias, sentiu vontade de regressar a casa, de acordar na sua cama a dizer que tudo tinha sido um sonho. Teve vontade de regressar à sua rotina de se levantar cedo, todos o dias, tomar um chá e voltar ao trabalho. E, sobretudo, tinha saudades de tudo: de Mitsu e da pastelaria, dos vizinhos e aqueles que poderia considerar amigos.
- Já não deve faltar muito até chegarmos. - Ringo comentou, sombriamente.
O coração dele martelava-lhe nas costelas, de estar tão ansioso pelo que viria. Sentia-se outra vez com sete anos, depois do acidente que o separara, a ele e à sua mãe, do seu pai. Não se lembrava dele, nem do que se tinha sucedido naquele dia. Segundo a sua mãe, batera com a cabeça e ficara inconsciente durante uma semana. Como consequência, todas as suas memórias de infância ficaram comprometidas, e as lembranças daquele dia tinham-se, simplesmente, evaporado. Não se recordava das circunstâncias em que tinham sido deixados para trás, mas desde o dia em que acordara que guardara rancor pelo pai. Não importava se eram sangue do mesmo sangue.
Ringo encostara-se a si. Surpreendeu-se por aquele gesto de carinho tão repentino, mas não se importou por isso. Era a prova de que ainda não estava sozinho, nenhum deles estava. E, por isso, estendeu a mão a Cassidy. Esta tinha um aspecto pior do que os deles. Olheiras profundas sulcavam-lhe os olhos, e durante aquele tempo todo deviam ter estado escondidas pela sombra dos óculos. Também ela estava ligeiramente pálida, e com um ar cansado e abatido.
Apertou-lhe a mão, e este pôde sentir a pele dela, fria. Puxou-a para perto deles, sem sentir resistência. No instante seguinte, estava sentada ao seu lado, de mão dada com Ringo em cima dele. Passou-lhe um braço pelo ombro, e olhando pela janela, não viu nada mais do que um céu escuro.
Estavam todos demasiado cansados. As pálpebras estavam pesadas, e começaram a fechar-se. A sua última foi a imagem dela, adormecida, com o nariz encostado ao seu ombro, sempre de braço esticado e a mão agarrada pela rapariga-espírito. Depois disso, os seus olhos fecharam-se e a respiração tornou-se mais lenta e profunda.
Não sobe durante quanto tempo tinha dormido, nem se lembrou do que tinha sonhado. Apenas acordou com o súbito travar da carruagem, com a sensação de ter acabado de acordar de um sonho excepcionalmente bom. Ringo e Cassidy também tinham acordado, e tinham-se levantado.
Tinham chegado a um pátio, cheio de muitas outras carruagens iguais àquela. Os oficiais saíram da carruagem e entraram por uma porta de madeira escura, na outra ponta do pátio, deixando-os trancados e sozinhos. Pareceu, a Rudolph, uma oportunidade perfeita para se escaparem.
- Venham, depressa. - Tentou abrir a porta com um gancho de ferro retorcido, enfiando-o pela fresta e empurrando-o até ao trinco. Não tinha muita experiência naquilo, mas já tinha visto um antigo colega seu fazê-lo, quando ainda tinha emprego. E, com um clique, a porta abriu-se.
- É a nossa única oportunidade. - Desceu, seguido por Ringo. Cassidy, no entanto, fitava o chão, relutante.
- Mas temos de activar a máquina. - Teimou, antes de saltar da carruagem. A mensagem da demónio, mesmo que se assemelhasse a um sonho, parecera-lhe bastante clara na altura, assim como naquele momento.
- Podemos fazer isso noutra altura, em que estejamos mais preparados. - Estendeu-lhe a mão, à espera que ela agarrasse e fugissem dali. Relutantemente, aceitou segui-los para fora do portão por onde tinham entrado.
Estavam numa rua que, no passado, devia ser ricamente decorada em mármore, com sebes viçosas por cima dos muros de tijoleira branca e imaculada. O pavimento era em pedra branca, em pedras que, outrora, deviam estar perfeitamente alinhadas. Mas agora tudo o que viam era a destruição. O chão estava esburacado pelas granadas, a tinta das paredes tinha caído, e as sebes estavam reduzidas a ramos secos e sem vida.
A guerra civil de Paladina já tinha feito várias manchetes nos jornais, mostrando toda a sua violência em fotografias horrendas, a preto e branco, de casas destroçadas. Mas estar ali, no meio da guerra, era outra coisa completamente diferente. Guiadas por ele, as duas seguiram rua acima, por aquele cenário desolado de destruição.
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