Capítulo 18
Monte de fogo
Aproximavam-se a passos largos daquilo. Cada vez a luz se esvaía mais, mas o tempo estava abafado. De algumas bocas no sopé do monte sopravam fumos tóxicos de enxofre, ácidos e dióxido de carbono. O ar, ali, estava quente como num forno, e mesmo com a distância que separava Solaria do vulcão, era difícil perceber o porquê de viverem ali. Era quase como morar ao lado de uma bomba relógio, tão instável quanto uma mina terrestre.
Resolveram nem entrar na aldeia, caso alguns dos oficiais de Paladina também lá estivessem, à espera deles. Seria realmente muito estranho se não estivessem lá, quando o principal objectivo definido era encontrá-las, custasse o que custasse. Estacionaram no sopé da enorme montanha fumegante, e começaram a subir a pé. Era um processo moroso, e não muito agradável, fosse pelos fumos estonteantes.
Cassidy acreditava que estava a começar a ver coisas. Talvez fosse por todos os acontecimentos que já tinha presenciado, que, misturados com o enxofre, se misturavam num enorme novelo confuso. Ao lado, Rudolph, de cara vermelha, também parecia lutar com os gases inebriantes. Imaginou-os, aos dois, a fazerem figuras ridículas com os efeitos da cortina de fumo. E deu por si a tapar a boca e a conter-se para não se rir ao imaginar o moreno a dançar aos berros, com a cara tão vermelha como a tinha naquele instante.
Ringo era a única que não parecia estar a ser afectada pelos gases vulcânicos, pelo simples facto de que não era, inteiramente, humana. E, ao fim de algum tempo em marcha lenta, passou a liderar o grupo, até um dos cones vulcânicos secundários que ainda estivesse aberto. Estavam a aproximar-se, pois o ar aquecia cada vez mais, e o chão queimava-lhes as solas dos sapatos.
- Não podemos ir mais longe. - Rudolph chamou a atenção, e, relutante, voltou alguns passos para trás, encarando-o, olhos nos olhos. Só naquele momento reparou no perfeito azul-claro e gelado deles, e nas profundezas indistintas que estes lhe mostravam.
- Eu posso ir lá! Passa-me o orbe, Cassidy. - Ringo, como uma criança, estendeu os braços para apanhar a esfera cristalina, quando a ivoriana lha atirou. Quando esta passou à frente do moreno, uma sombra rápida trespassou-lhe o olhar como uma seta. Mas manteve-se o silêncio.
A rapariga-espírito continuou a subir a encosta, escorregando nas pequenas pedras que se soltavam dos rios de lava seca. Ao nariz vinha-lhe um cheiro forte, não do enxofre mas de fogo puro. O Monte Sorel reclamava pelo objecto, parecia estar vivo e a sentir a presença da esfera.
E, alguns metros abaixo deles, subia um grupo de polícias. Esperavam montar um cerco e apanhá-los, e para isso precisavam de evitar qualquer ruído. E cada vez subiam mais, assim como Ringo estava quase a alcançar o pequeno rasgão laranja, brilhante e profundo, nas rochas. Cassidy limpava a testa, distraída, mas Rudolph tinha-se virado para trás e visto os oficiais.
Estavam encurralados, não havia para onde fugir. E, se Ringo destruísse a fonte, a ira de Demergon seria o seu fim. Mas, se não fosse destruída, então talvez ainda tivesse uma moeda de troca pela sua vida, e, quem saberia, pela vida dela também. Não se importava com outros, desde que, pelo menos, pudesse encontrar uma maneira de não ser visto como um reles traidor.
E, num movimento rápido, tirou um revólver pequeno e prateado da bainha das calças, que tinha estado, aquele tempo todo, escondido num dos bolsos. Agarrou a ivoriana por trás e apontou-lho à cabeça, com o cano encostado a uma das têmporas. Cassidy não se conseguiu soltar dele, e ficou com a boca tapada pela mão livre.
- Pára ou eu disparo! - Gritou, e tanto Ringo quanto os oficiais pararam, a observar a cena. Ela estava lívida, a apenas um passo de completar o seu objectivo. - Passa a fonte bem devagar...
Mudou o revolver para a outra mão, sempre a prender a ivoriana com o braço, e estendeu-lhe a mão livre, a aceitar o orbe. Estava perto de conseguir, alongava-se já a imaginar o que pediria em troca daquele objecto valioso. E os polícias de Paladina tinham-se aproximado ainda mais, em meia-lua, barrando-lhe o caminho de volta. Pouco faltava para tudo terminar.
Mas, por ironia do destino, a esfera de cristal escorregou pelos dedos da rapariga-espírito e caiu. Caiu muito lentamente, como num filme em câmara lenta, na borda da fenda, antes de desaparecer, com um breve reflexo, nas profundezas das entranhas do vulcão Sorel. Assim como toda a esperança que ainda lhe restava, esta afundou-se rapidamente no fluído viscoso.
Apenas teve tempo de guardar o revólver outra vez, antes de dois pares de mãos o agarrarem e o algemarem. Também as tinham agarrado a elas, e estavam a algemá-las. Ringo, que poderia ter fugido com a maior das facilidades, deixou-se apanhar, paralisada, de olhos esbugalhados e surpresos como os de uma pequena corça encandeada.
- Traidor! Estúpido! Idiota, covarde, falso! Metes-me nojo! - Cassidy começou a gritar, como ele nunca a tinha ouvido gritar, contorcendo-se para se soltar deles e dar-lhe outro murro na cara, ou desintegrá-lo com o violino. Tinha a cara vermelha, e no esforço de a manterem segura, um dos oficiais desapertou a correia dos óculos. Estes caíram com grande estrépito, e foram deixados para trás quando o grupo foi arrastado até à carruagem.
Uma vez lá dentro e trancados, esta só não o atacava porque estava algemada. Cada palavra que lhe dissera pesava na sua consciência de uma forma que ele não tinha sequer imaginado antes. Estava a deixar-se afectar por ela, talvez. Tentou abrir a boca para lhe responder, mas recebeu uma cuspidela na cara como resposta. Aquilo fê-lo desistir, e, impotente, baixou a cabeça, sentindo a tensão presente naquele cubículo de madeira.
Conseguia sentir as perguntas presas na garganta de Ringo, e a habitual expressão serena dela tinha dado lugar a uma cara pálida e abatida, de olhos como duas lâmpadas fundidas. Era ela que tinha confiado mais nele, muito mais do que a ivoriana. Isso lembrou-lhe as vozes do templo em ruínas. “Ela não confia em ti, para ela não és nada, não passas de uma pedra no sapato.” Naquela altura abanara a cabeça, não podia ser verdade, mas agora isso tornara-se realidade de uma forma dolorosa.
Não podia piorar mais. Com a morte da mãe, o desaparecimento do pai desde os seus sete anos e a recente inimizade com elas, estava outra vez sozinho.
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