Capítulo 17
Demónio do destino


Estava sentada numa estranha estrutura, com dois orbes à sua frente. Estendeu as suas mãos até as pousar sobre eles, e o interior da pirâmide iluminou-se. Depois disso sentiu-se a flutuar no ar, e, de repente, já não se encontrava mais no mesmo lugar. E ela mesma estava diferente.

Quando acordou estava no banco traseiro do Phantom, e eles avançavam, a toda a velocidade, por uma estrada de terra batida. Esperavam alcançar Solaria rapidamente, e destruir a estranha esfera tornara-se uma obrigação. A voz de Basttete ainda lhe ecoava pela cabeça. “O que enfrentas já esteve vivo. O que enfrentas já habitou Paladina.” Mas ela enfrentava Demergon, e ele era natural de Ivoria. Além de ter a absoluta certeza de que, desagradavelmente, ele ainda estava vivo.

De automóvel as viagens eram muito mais rápidas. A pé, ir de Ivoria a Amarentia demorara dois dias, no mínimo. Mas, de automóvel, uma distância semelhante àquela não iria durar muito mais que um dia. E, assim, estavam confiantes que depressa poriam um fim àquela história.

- É simplesmente estranho o que aconteceu àqueles sacerdotes todos, mas se nos lembrarmos bem, nenhum deles voltou. Ignimo, o antigo Mestre do Templo de Tanagéria, só se elevou a esse estatuto depois do antigo Mestre desaparecer. - Ringo recordava, de cotovelos em cima de um livro, aberto no colo. O livro estava aberto num capítulo sobre lendas populares e deuses. Reconhecendo uma das imagens, Cassidy pediu-lhe o livro.

Era um desenho, de tons claros, de uma mulher de longos cabelos brancos e olhos amarelos em fendas, como os de uma serpente. Parecia flutuar e irradiar luz, além de uma beleza sobre-humana. Ao lado tinha a legenda.

“Basttete: Demónio primário da verdade e da vida, bastante conhecida por segurar uma das pontas de um fio de lã enquanto os mortais seguram a outra ponta e o vão enrolando num novelo. Vulgarmente representada por uma gata ou uma serpente, simboliza a perseverança da vida no destino, até à morte.”

- O que é? - A outra perguntou, espreitando por cima do ombro dela, ate focar a página que Cassidy lia, atentamente. Fora apanhada de surpresa pelo interesse súbito da ivoriana.

- Ela falou comigo. - Apontou para a imagem, perante o olhar atónico de Ringo.

- O que é que disse? - Perguntou depressa, mal contendo uma ânsia ávida em pormenores. Cassidy conseguia-a perceber: desde que tinham levado Nofrure que ela se mostrava impaciente para irem salvar a pequena sibila.

- Que tínhamos de destruir a fonte. E depois... podemos ir. - Disse, omitindo parte da conversa. Talvez fosse melhor não dizer tudo, pois não sabia explicar o porquê de ter de ser ela a activar a Máquina. Olhou para a frente, e viu, reflectidos no espelho, os olhos inquiridores de Rudolph. Um pequeno arrepio percorreu-lhe a espinha, enquanto constatava que parecia que ele sabia dos detalhes que estavam a ser escondidos.

Calaram-se, deixando que os barulhos do motor e dos eixos das rodas preenchessem o lugar do silêncio. Ela acabou por fechar o livro e entregá-lo a Ringo, que o guardou dentro de uma das malas. Fora do Phantom, o sol parecia queimar o ambiente envolvente, erguendo-se como um gigantesco disco brilhante no céu. Ali estava mais calor que em Ivoria ou Amarentia.

Porém, acima das suas cabeças, o céu começou a ficar encoberto. Primeiro eram apenas uma ou duas nuvens passageiras, levemente acinzentadas. Depois começaram a adensar-se, e a luminosidade azul começou a escurecer, como numa pequena tempestade. Pequenas gotas de chuva começaram a cair, molhando tudo. As folhas das árvores agitavam-se, naquela bênção de água, e mesmo eles pararam por um pouco. A água misturava-se com o pó e começava a criar lama no vidro da frente.

Os três saíram, e Rudolph levava uma garrafa de água para despejar em cima dos vidros, de maneira a limpá-los e a impedir o avanço de uma lama fina e peganhenta. Cassidy e Ringo também saíram, e ficaram paradas no meio da chuva. Para a ivoriana, cada gota de chuva que lhe caía no rosto parecia purificar-lhe o espírito. Há muito tempo que não se sentia assim tão viva.

- Este tempo não é normal. - Ringo observou, de rosto virado para o céu, e os seus límpidos olhos reflectiam as nuvens carregadas. O vento soprava-lhes os cabelos para cima das caras, e estes colavam-se, molhados.

Rudolph era o único que parecia estar a fazer alguma coisa: despejava água para cima dos vidros e esfregava com um lenço, que já tinha passado de branco a castanho. Terminou a tarefa em pouco tempo, e voltaram a entrar. Menos Cassidy.

O moreno ficou a olhar através do vidro, antes de voltar a abrir a porta. Caminhou até ao lado dela, sem saber muito bem o que dizer. Aquele tempo todo era como se tivessem estado a brincar e a esconder os pensamentos. E ela não era, de todo, desinteressante, factor que o fazia reprimir ainda mais algumas ideias.

- É melhor entrar, ou ainda apanhas um resfriado. - Comentou, e ela encolheu os ombros. A cartola protegia-lhe um pouco a cara, mas isso não impedia que as faces estivessem molhadas.

- Eu sei cuidar de mim, obrigada. - Virou-lhe as costas e entrou no Phantom, mas não sem que as mãos roçassem entre eles. Sentiu a boca seca, mas não comentou nada, e refugiou-se no seu canto, ao lado de Ringo. Estavam molhadas, mas não se importaram com isso.

Ele também entrou, e num instante se faziam, novamente, à estrada. A terra, molhada, transformava-se, gradualmente, em lama, mas desta vez o automóvel não parecia estar a atascar-se. Pequenas pedras batiam no fundo, mesmo debaixo dos seus pés, e as plantas roçavam no metal. Cada vez escurecia mais, e parecia que a noite vinha mais cedo.

Ringo, de nariz encostado ao vidro da janela, suspirava pelo tempo tempestuoso, e o orbe pareceu pesar-lhe na consciência. Demergon devia ter uma forma de saber onde estavam, apenas assim se podia explicar o facto de terem encontrado Oficiais e Saqueadores pelo caminho, além de espíritos traiçoeiros. Como qualquer grande feiticeiro, ele não deixaria as coisas pela metade. Ao longe começaram a avistar os contornos de uma cidade, repleta de edifícios altos e de janelas brilhantes. Ao lado erguia-se uma montanha escura, sem nenhuma vegetação, e que parecia libertar alguns gases. A meio dela havia algo que irradiava um estranho brilho alaranjado, que parecia chamá-los.

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