Capítulo 16
Força de vontade
Nofrure voltou a acordar, no meio de uma masmorra escura e húmida. Tinha o vestido molhado de estar deitada ali, e tremia de frio. Mas não estava sozinha, e alguém tinha reparado no súbito movimento. Uma sombra grande e familiar moveu-se também, aproximando-se.
- Nofrure? - O velho homem perguntou, afastando-lhe uma mecha de cabelo da cara. Reconheceu-o como sendo o antigo mestre do seu templo, Ignimo. Mas ele já não tinha o mesmo ar jovial e simpático de que ela se lembrava. Profundas olheiras sulcavam-lhe a cara, os olhos estavam amarelados e cansados, e estava macilento, além do seu habitual sorriso se ter apagado.
Além dele estavam lá mais pessoas. Uma empregada loira, com um uniforme rosa e orelhas de coelho de plástico inseridas no chapéu aproximava-se também, com alguns golpes nos braços e nas pernas. A saia estava suja de sangue.
- Quem é, Ignimo? - Perguntou, numa voz fragilizada, e Nofrure não pôde deixar de sentir pena daquelas pessoas.
- Esta é a Nofrure, Mitsu. Uma antiga discípula minha. - Ele respondeu, cansado e arfante. A outra anuiu com a cabeça, e num pequeno sorriso tímido também se apresentou.
- O meu nome é Mitsu, e trabalhava numa pastelaria chamada Melaria, em Ivoria. - Estendeu-lhe a mão para a apertar, acto ao qual ela correspondeu. Mas algo lhe havia despertado a atenção.
- Disseste Ivoria? Cassidy também é natural de lá.
- Ela está viva? - Quase gritou, mas os outros rapidamente a silenciaram. Parecia que naquela prisão era mais aconselhável falar-se por sussurros. - Ficámos tão preocupados, eu, o Bill e os outros colegas do bairro. Disseram-nos que ela estava morta, foi por isso que nos juntámos à Rebeldia.
Soluçava, apertando as unhas contra as palmas da mão. Nofrure também não sabia o que dizer, já tinha passado algum tempo que ela as deixara para trás. Não tinha a noção do tempo ali, no meio da escuridão, mas continuava a ter aqueles sonhos que a deixavam alerta. Sabia que tinham encontrado o antigo detective de Paladina, e que tinham encontrado a fonte, mas as suas visões estavam a tornar-se difusas e estranhas.
- Eles estão bem, e nós vamos conseguir sair daqui. - Deu por si a falar, mais para reconfortar o seu ego do que para acalmar os outros.
*****
Tinham saído daquela parte mais profunda da floresta, optando por um caminho de terra batida, mais seco que o anterior. Annouk já tinha sido sugado de volta ao interior do violino, e ninguém dizia nada. Ringo girava a esfera cintilante entre os dedos, enquanto cada um deles pensava em como destrui-la.
Já tinham tentado parti-la com pedras, mas esta mantinha-se intacta, ao contrário de tudo o resto. Parecia indestrutível, e só não tinham tentado atropelá-la porque Rudolph saltara em defesa da sua viatura. Mas, depois disso, tinham esgotado as ideias, e Cassidy perguntava-se se o melhor não teria sido atirar o orbe para o abismo do templo. Ninguém lá quisera voltar, muito menos depois da fonte ter provado que conseguia levitar.
- E agora? Vamos onde? - A rapariga-espírito interrompeu o silêncio, olhando para o lugar do condutor. Ele encolheu os ombros, mostrando que sabia tanto quanto ela. Não podiam ir já a Paladina, ou corriam o risco de deixar cair aquela esfera cristalina nas mãos erradas.
- Segundo o mapa a cidade mais próxima é Solaria. - A cabeça de Cassidy emergiu de trás de uma extensa folha, cujos vincos sulcados mostravam que já tinha estado dobrada durante muito tempo.
- Claro! - Gritou de repente, assustando a ivoriana e o moreno. - O vulcão!
- Qual vulcão? - Rudolph perguntou, enquanto vasculhava a cabeça à procura de um vulcão no que se lembrava do mapa.
- O Monte Sorel. Mesmo ao lado de Solaria, deve ser suficiente para destruí-lo. - Ringo explicou, enquanto voltava a dobrar o mapa. Parecia exultante, e muito mais animada.
- Só que esqueceste-te de um pequeno pormenor. - Cassidy interrompeu aqueles poucos minutos de felicidade. - O Monte Sorel está adormecido.
- Existe um poço de lava numa das entradas secundárias. Mesmo que não se destrua, o que eu não acredito, não ninguém suficientemente maluco para ir lá buscá-lo. - Desta vez era o moreno que recuperava o ânimo dentro do Phantom, o que fez com que ela torcesse o nariz. As vozes ainda ecoavam na sua cabeça, e agora tinha dúvidas infantis na sua cabeça. Ele já tinha sido um inspector de Paladina, quem lhes dizia que ele não as entregaria assim que pudesse?
Já era quase noite, e o sol punha-se num horizonte distante. A ivoriana lembrava-se de quando o via a pôr-se através do vidro do relógio da torre, enquanto se lembrava das velhas histórias de marinheiros, que desde nova ouvia, recheadas de monstros marinhos. Depois, na noite, apenas se viam as estrelas, as duas luas e o início de uma aurora eléctrica que só se anunciava durante a madrugada.
Mas, ali, assim que o sol desapareceu, deixando atrás de si um rasto de cores matizadas entre o rosa e o lilás, tornara-se óbvio que, desta vez, nem mesmo as estrelas lhes fariam companhia. Haviam demasiadas nuvens no céu, algumas delas de aspecto tempestuoso, que tapavam tudo numa paisagem soturna.
Estacionaram numa pequena clareira calma, esperando estar suficientemente longe dos olhares curiosos. Cassidy saiu, e com as malas improvisaram dois bancos. A partir do pouco pão que tinham e de outros suprimentos, tentaram fazer um pequeno jantar. A ivoriana aventurou-se a experimentar um pouco de vinho envelhecido em cascos de pinho, enquanto Rudolph bebia pela garrafa. Reprovava aquele comportamento, mas mantinha-se calada. Não havia nada a fazer para mudar aquele hábito.
- São dez horas e vinte e sete minutos. - Tirara o relógio do bolso para consultar as horas, e as pálpebras pesavam-lhe. Estava cansada, tinham sido demasiadas coisas para um só dia.
Voltaram a arrumar as malas, e as duas acomodaram-se no banco traseiro. Ringo bocejava, e depressa adormeceu, enquanto Cassidy levou mais tempo até que os seus olhos se fechassem completamente. Ainda assim, não estava completamente inconsciente: na sua cabeça passava uma série de imagens de quando era criança e ia à escola. Dos calções e das meias curtas que a faziam tiritar de frio, pertencentes ao uniforme do colégio. E, depois, as cascatas de luz.
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