Capítulo 15
As vozes confusas


Nenhum deles esperou até ver quais seriam as intenções do velho antes de fugirem. Entraram outra vez no templo, tendo o cuidado de andar pela borda, antes de caírem num abismo. Esperavam que isso o atrasasse, mas a estranha figura atravessou o vórtice como se sobre ele houvesse alguma superfície lisa e invisível. Sem outra alternativa, refugiaram-se na segunda sala, mesmo sabendo que nem as paredes o deviam parar.

- Detesto templos e bruxos! - O moreno praguejava com quantos dentes tinha, tropeçando nos pedaços caídos do tecto. Cassidy ignorava-o, puxando-o por um braço até ao cemitério improvisado. Esperava que aquilo, pelo menos, o travasse por um pouco.

O espírito ficou a olhá-los da entrada do sepulcrário, enquanto eles recuperavam o fôlego, na outra ponta. Curiosamente, ele não avançava, depois de ter mostrado até que ponto era persistente. Ali, estranhamente, algo o fazia parar, e demorou algum tempo até que ela percebesse porquê.

Quando as almas passavam a fazer parte do plano espiritual, era-lhes concedida a eternidade para elas mesmas subsistirem. No entanto era-lhes imposta uma única condição: que estas nunca pisassem o mesmo solo que albergava as suas ossadas do seu corpo mortal. E, ali, mesmo que a entidade principal não fosse aquele fantasma, era por demais óbvio que seria o seu fim se desse um passo em frente.

Só precisavam de fazer com que ele desse esse passo. No entanto isso seria difícil, pois não seria uma simples provocação que o faria andar até eles. Qualquer que fosse a mente por trás daquela marioneta era esperta o suficiente para perceber a jogada.

“Seria bom se o conseguíssemos convencer. Atraí-lo, mas com o quê?” Questionava-se mentalmente, olhando em volta. Nada do que ali estivesse poderia ajudá-los.

- Ajudar-vos? Tens a certeza? Talvez não tivesses, se soubesses do que ele conspira nas tuas costas. - Uma voz sussurrou-lhe ao ouvido, calma e lentamente, e os pelos da nuca eriçaram-se-lhe. Olhou, desconfiada, para o lado, e viu que ele estava pálido como uma folha. No entanto não lhe pareceu que ele tivesse ouvido a voz.

- Nem vai ouvir. Somos só nós, sozinhas. E, diz lá, haveria alguém assim tão do teu lado? - Voltou a sussurrar-lhe aos ouvidos, e ela conseguia sentir um bafo quente a emanar junto do seu pescoço.

Agora estava num impasse. Se, por um lado, era-lhe óbvio que aquela voz pertencia às assombrações, por outro lado ela tinha conseguido o seu intuito: semear dúvidas entre eles os dois. Rudolph começou a olhar para ela, com uma expressão pavorosa na cara, e ela respondeu-lhe com a expressão mais convencida que pôde.

- Têm medo, todos eles. - Cada vez a voz era mais forte, e quando olhou para a segunda entrada do templo constatou que o fantasma já lá não estava. Fechou os olhos, e as pernas começaram-se a mover sem que ela quisesse, como se tivessem vida própria.

Uma mão segurou-lhe um dos braços, mas estava suada e ela escapou. Entrou na sala destroçada, com uma lágrima a escorrer no canto do olho. Não, ela não chorava, ela não podia chorar. Não chorava desde a morte do pai, não depois dele dizer que não queria ver nenhuma lágrima a descer-lhe a cara outra vez. As vozes voltavam, diziam para parar. Mas havia outra, um grito que saía das suas entranhas, que a incitava a ir em frente. Também ouvia passos atrás de si, mas estava disposta a ignorá-los. Estava na sala do altar, e o abismo estava a escassos centímetros dela, cada vez mais perto.

Caiu pela segunda vez naquele buraco negro, mas não havia nenhuma parede que a segurasse desta vez. Submergiu, como se estivesse em água, e não via nada à sua volta. A queda abrandou consideravelmente, e saíam cómicas bolhas do seu nariz, mas conseguia respirar. Era tudo tão... surreal.

- Encontramo-nos finalmente. - Desta vez a voz que ouviu tinha corpo, e era o de uma mulher jovem, com os mesmos olhos que ela. Estendeu-lhe uma mão, e os seus longos cabelos claros revoltaram-se.

- Quem és? - Achou aquela pergunta desnecessária, mas inevitavelmente teria que a fazer.

- O meu nome não importa. Importa a situação em que nos encontramos.

- Demergon! É ele que está por trás disto tudo. - Mas ela abanou a cabeça negativamente, deixando-a surpresa e confusa.

- Há algo mais poderoso ainda. Algo que não é mortal e, por isso, será imune a qualquer ataque.

- Mas... então...

- Destrói a fonte. E depois vai até Paladina, e activa a Máquina. - Ela falava agora com um semblante mais sério.

- Mas como? Supostamente a fonte é a única maneira de activá-la.

- Na altura saberás. E lembra-te, as pedras que sustêm a Máquina são as mesmas do antigo Cemitério de Paladina.

- Porque me dizes isso? - Perguntou, antes do orbe de cristal brilhar no seu bolso e a envolver numa bola de luz.

- O que enfrentas já esteve vivo. O que enfrentas já habitou Paladina. - Estava cada vez mais distante, e sentiu-se adormecer. Antes de perder a consciência teve a vaga sensação de estar a subir, e de alguém a chamar pelo nome.

*****

Acordou aos abanões, sendo transportada por alguém. Abriu mais os olhos, ficando cara a cara com ele. Gemeu baixinho, maldizendo a hora em que tinha desmaiado.

- Finalmente voltaram, e... - Ringo calou-se ao ver a imagem, assim como Annouk parara de roer uma das patas.

- Larga-me. - Sibilou para Rudolph, que desajeitadamente a deixou cair no chão. Sem outra alternativa, levantou-se e sacudiu as calças e o casaco, não sem antes pisar um dos pés dele com todas as suas forças.

O automóvel já não estava atascado em lama e, segundo Ringo, isso devia-se a uma estranha nuvem dourada que o elevara e secara o chão. Cassidy tirou o orbe do bolso, e mostrou-a a todos. Teriam que a destruir o mais brevemente possível, e só depois viajar até Paladina.

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