Capítulo 14
A pirâmide invertida
Depois de pararem alguns minutos a admirarem a estátua, tentaram prosseguir para o interior do arruinado templo, mas algo os impediu. O primeiro a parar foi Annouk, a meio do átrio. Sentou-se, relutante, olhando para os lados. A segunda a sentir a estranha presença foi Ringo, que se encolheu a tapar os ouvidos.
- Que...? - Rudolph parou também, pronto a prestar-lhe ajuda, como qualquer bom cavalheiro. Mas ela abanou a cabeça, retornando para junto de Annouk.
- Vão. Vão lá dentro buscar a fonte, vocês são imunes. - Disse-lhes, estranhamente assustada.
- Imunes como? Imunes ao quê? - O moreno perguntou, confuso. Ele não tivera nenhuma ligação com o mesmo mundo delas, e por isso desconhecia alguns dos conceitos que tanto a ivoriana como a rapariga-espírito falavam.
- As entidades que habitam este lugar não podem tocar em carne viva, mas podem afectá-los, uma vez que eles já não pertencem, de todo, ao mundo dos vivos. - Cassidy explicou-lhe, de uma forma fria e superior. Talvez fosse apenas impressão sua, mas parecia que ela estava muito satisfeita em vê-lo ignorante sobre algo. Quase como se estivessem numa competição para ver quem era o mais sábio do grupo.
Virando as costas, continuaram o caminho até entrar na primeira divisão do templo. Ali os arbustos tinham furado o chão de mosaicos de pedra e prosperavam naquele ambiente abafado. O tecto tinha caído, cobrindo tudo. À frente deles estava um altar de pedra, partido em metade, parcialmente tapado por enormes pedaços da cobertura, e ainda se podiam ver as pinturas que antigamente a decoravam.
Com um extremo cuidado, procuraram uma entrada que os levasse a outra sala, que estava no mesmo estado da primeira quando lá entraram. À excepção de que essa parte do templo estava completamente vazia. Não havia nenhum altar, nem nada que indicasse que ali houvera um centro religioso anteriormente. No entanto, mesmo no meio daquele deserto de pedras e pedaços da parede, algo despertou a atenção dela. Era um pequeno fiapo de tecido escuro, debruado a prata.
Precipitou-se sobre ele, e associou-o a um manto escuro, de veludo azulado e com as bordas decoradas com fio de prata, envergado por um homem de longos cabelos negros presos e olhos gélidos, que os obrigava a ler livros da grossura do seu braço durante os fins-de-semana. Não era o único farrapo de tecido ali, pois após olhar com mais atenção pôde constatar que haviam mais farrapos, de cores e tecidos diferentes.
- Cassidy! - Rudolph chamou-a, apontando para uma abertura que dava acesso ao espaço exterior. Quando ela foi ver, encontrou um espaço cheio de campas improvisadas com cruzes de pedra espetadas a assinalar o lugar. Uma sensação de asco irrompeu-lhe no estomâgo.
- Este era o Templo Lunar. Foi aqui que todos os sacerdotes se encontraram, e... - Não conseguiu continuar, a ideia era-lhe demasiado horrível. Contudo Demergon estava a salvo, devia ter sido o único a escapar. Ou, provavelmente, tinha sido ele a provocar tudo aquilo. Voltaram para trás, para a primeira sala. Enquanto andavam, ela reparou numa linha recta, mais escura, que percorria o chão, tapada pelos detritos. Seguia, paralela às paredes, quase como um quadrado.
À frente da porta, a linha era interrompida por um selo com um símbolo estranho: uma serpente alada, enrolada sobre si mesma de forma a representar o símbolo do infinito. Cassidy baixou-se, de forma a limpar o pó que o cobria e passar-lhe os dedos por cima. Conforme o fez, ouviu-se um estrondo, e o chão começou a desmoronar-se. Sem qualquer apoio, caiu de costas no meio daquilo que lhe parecia um enorme vazio, negro e sem fundo. Rudolph virara-se assim que ouvira o estranho ruído, e tentara agarrar-lhe uma das mãos, mas não fora a tempo.
Porém as suas costas depressa embateram numa superfície lisa e escorregou até ao centro daquilo que se assemelhava a uma pirâmide invertida. Mas, quando abriu os olhos, viu que ainda estava num grande espaço escuro, como se as paredes fossem invisíveis.
- Estás bem? - Rudolph gritou-lhe, olhando para baixo. Cassidy, que tentava levantar-se, achou que aquela era uma pergunta nada oportuna e um pouco idiota.
- Não, acabei de cair num enorme abismo. - Respondeu-lhe, sarcástica, mas calou-se quando viu que, apoiada num pequeno pedestal no centro da pirâmide, estava uma esfera translúcida, com pequenas luzes que se movimentavam no seu interior. Agarrou-a, com as duas mãos, e sentiu um calor fraco que emanava do orbe de cristal.
Agora que já tinham a fonte, a sua única questão era como iria ela sair dali. As quatro paredes invisíveis da pirâmide eram lisas e escorregadias, e não conseguia subir por elas. Não haviam escadas, nem fissuras onde ela pudesse apoiar as mãos e os pés. O moreno também parecia ter pensado nessa possibilidade, pois olhava para todos os cantos da divisão à procura de qualquer coisa eu pudesse ajudar.
A ivoriana deu por si a pensar na falta que Annouk lhe fazia, quando levou a mão à testa. Naquele momento sentiu-se muito estúpida por não ter pensado naquilo, pois não só era a solução para sair dali como serviria também para o automóvel atolado.
Rapidamente tirou o violino, ajeitando as cordas douradas e pousando o arco em cima delas. Iniciou uma ária lenta, e um ser alado surgiu debaixo dos seus pés, de penas negras e brilhantes como as de um corvo. Em pouco tempo ela voltava à superfície, e a criatura desfez-se em fumo. Parecia que o ar pesado do templo os afectava mais, e foi com alívio que saíram dali. Procuraram por Ringo e Annouk no recinto do átrio, mas não encontraram ninguém.
- Estão aí. - Ringo apareceu subitamente atrás deles, sozinha. Rudolph suspirou de alívio, mas Cassidy achou que havia alguma coisa estranha ali. Ela não conseguia estar ali, e não havia sinal de Annouk em lado nenhum, quando ela mesma sabia que não dera a ordem para ele desaparecer.
- Onde está Annouk? - Perguntou, cerrando os punhos, mas ela não lhe respondeu. Em vez disso virou-lhes as costas e começou a andar em direcção à floresta. O moreno começou a segui-la, mas a ivoriana barrou-lhe o caminho com um braço.
- Responde! - Gritou-lhe, e a rapariga-espírito parou. Só que não era Ringo e, lentamente, transformou-se num velho de túnica, careca e esquelético. Este começou a caminhar na sua direcção, com um brilho estranho nos olhos e a murmurar num dialecto desconhecido.
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