Capítulo 13
O galgo negro


Apoiou o instrumento junto ao maxilar, passando os dedos sobre as cordas como se esperasse sentir alguma vibração mais estranha. Depois passou o arco, e o som baixo e agudo de uma ária típica de caça encheu o automóvel, preenchendo cada vazio. No banco de trás, sentado ao lado delas, surgira uma massa escura que rapidamente tomara a forma de um galgo, de olhos vermelhos brilhantes como duas chamas.

- Annouk é a invocação que controla todas as outras. - O relógio explicou à rapariga de vermelho, e esta acenou afirmativamente com a cabeça. O cão era estranhamente mudo, e nenhum dos seus movimentos, nem mesmo os mais bruscos, produziam algum som.

- Annouk, não temos a certeza do que podemos encontrar aqui. Podes dar uma espreitadela? - Cassidy pediu-lhe com suavidade, passando os dedos pela cabeça da sombra. Embora não passasse de matéria negra, havia uma certa suavidade que nem mesmo o algodão teria.

O galgo pulou para fora do automóvel, atravessando a porta fechada como se esta não passasse de uma ilusão apenas. Desapareceu na floresta, unindo-se às sombras que se apoderavam cada vez mais do caminho. O Phantom dava solavancos que as sacudiam para os lados, e cada vez mais o chão era irregular e lamacento. Até que, com um safanão brusco, o automóvel parou, atascado na lama, projectando tudo e todos para a frente. Cassidy foi contra o banco do condutor, e Ringo bateu com o queixo na alavanca das mudanças, com a mala a cair em cima dela. O motor parou-se.

- Raios, eu não acredito! - Rudolph dava largas à sua raiva, soltando um palavreado de baixo calão digno de um marinheiro de cargueiro. Voltou a rodar a chave na ignição, para tentar sair dali, mas era escusado. As rodas estavam demasiado atascadas na massa viscosa de terra, folhas, raízes e água, e o motor falhava.

Parou quando ouviu, atrás de si, portas a abrirem-se. Voltou-se tão de repente que quase conseguia um torcicolo no pescoço, a tempo de as ver sair com a mala atrás. À pressa, saiu também, contemplando de seguida o estado do velho Phantom. A parte traseira estava completamente enterrada em lama, de maneira a que apenas a porta da mala estava acima do nível do chão, salpicada de lodo. A metade da frente também estava toda salpicada, com as rodas dianteiras erguidas.

Cassidy, a custo, abriu a mala do automóvel, para retirar do seu interior o outro malão que haviam enchido com livros, mapas e alguma comida de reserva. Pousaram-nas num canto mais seco, perto de uma das árvores, e sentaram-se em cima delas a olhar para o estado da viatura e a imaginar uma maneira de o tirar dali. Rudolph, em particular, olhava o automóvel de frente como se enfrentasse um touro, com uma garrafa de vodka na mão. Porém, depois de algum tempo a fitarem-no, tornara-se óbvio que ele não iria sair dali sozinho ou que iriam chover ideias mirabolantes.

Ringo abriu uma das malas e tirou uma caixa metálica de bolachas de aspecto duro. Abriu-a, e aventurou-se a tentar comê-las, uma vez que estas tinham o aspecto de terem umas semanas de idade. Cassidy experimentou a tirar uma, mas depressa se arrependeu: as bolachas eram demasiado duras, e os seus dentes rangeram desagradavelmente. Se não fosse o caso de estar com fome, teria cuspido.

Silenciosamente, emergindo das sombras, Annouk voltara, com os olhos a brilharem como duas chamas ao vento. Sentou-se em frente da sua dona, fitando-a olhos nos olhos. E foi então que Cassidy viu. Uma história muda, de sombras esbranquiçadas e sem cara, de estranhas criaturas que abalariam a coragem de qualquer um e de um templo de pedra em ruínas, tomado pelas heras e pelo musgo, com uma estátua de uma deusa de olhos de pupilas em fenda, rachada e sem braços. Era ali que, estranhamente, os espíritos se concentravam, como se venerassem aquela estranha mulher que lhe era familiar.

- Está muito longe? - Deu por si a perguntar, mas Annouk abanou a cabeça negativamente. Ele não lhe saberia responder, pois não tinha a mesma dimensão racional dos humanos. Para ele, o tempo poderia passar conforme ele quisesse, ora muito depressa ora devagar como o andar de um caracol.

- É melhor irmos. Não deve faltar muito até encontrarmos o templo e o orbe, e de qualquer maneira não vamos encontrar assim tão depressa uma solução para essa geringonça. - Cassidy apontou para o Phantom de pintura cinzenta, todo enlameado, e começou a carregar as malas de volta ao seu interior. Ringo apressou-se a ajudá-la, mas Rudolph ficara no mesmo lugar, de beicinho.

- Essa geringonça é minha! E foi cara! - Reclamou da pouca importância dada pela ivoriana, mas esta limitou-se a encolher os ombros com o mesmo descaso. Trancaram as portas e abandonaram-no, sem outra opção. Nenhum deles tinha força suficiente para o puxar dali.

Seguiram o galgo negro, embrenhando-se numa parte da floresta onde as raízes das árvores se projectavam do chão em arcos cobertos de ervas viscosas e pendentes. Ali tinham de se apoiar nos troncos para não escorregarem, e por duas vezes tiveram a sensação de estarem a ser observados por pares de olhos animalescos e fugazes. Aquele labirinto verde era húmido, e isso fazia com que gotas de água das folhas das árvores caíssem em cima das suas faces, criando a ilusão de uma chuva fina.

Ao longe começaram a vislumbrar os contornos de algo grande contrastando com um céu aberto e límpido. Algo que outrora já tinha sido um grande edifício, e que agora jazia por terra. Os grandes telhados abobadados estavam fragmentados, as paredes apresentavam rachas por onde qualquer um deles podia passar à vontade, as plantas pareciam ter dominado o local.

Entraram por um arco embutido num espesso muro, onde em tempos devia ter havido um portão. No átrio, os mosaicos de pedra estavam estalados, e ao centro erguia-se a estátua da mulher. Mesmo partida ainda era possível verem-se alguns detalhes, comos os olhos e os dentes como os de uma serpente e os elaborados detalhes da sua túnica.

- Esta é a demónio Basttete. - Ringo confirmou-lhe uma certa suspeita e familiaridade com aquela imagem de pedra. Parecia-lhe agora que tudo apontava para um único caminho.

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