Capítulo 12
O início da busca


Ele fincou as unhas na sua mão, enquanto ela estava quase petrificada. Sentiu um puxão no mesmo braço, e limitou-se a segui-lo por outro lado, galgando o muro lateral. Começaram a correr, rezando para que isso não despertasse a atenção dos polícias.

Cassidy fez o violino aparecer nas mãos e, quando se esconderam numa esquina, dedilhou uma melodia rápida, quase como um chamado de caça. Num instante, várias sombras de galgos surgiram, de cabeça erguida, farejando o ar. Um deles cheirava com algum interesse os sapatos do moreno, que recuara alguns passos, sempre de olhos fixos nos animais.

De repente, como se tivessem ouvido uma ordem que mais ninguém captara, lançaram-se em correria para fora da esquina, latindo. A ivoriana voltou a guardar o violino, enquanto fugiam na direcção oposta. Parecia-lhes estarem já fora de perigo, quando chegaram a um beco sem saída. Pior ainda quando começaram a ouvir passos cada vez mais próximos atrás deles.

Desesperada, olhou para o muro que lhes impedia a passagem. Tentou escalá-lo, mas estava húmido e as suas mãos escorregavam no musgo. Tentou subir por um dos caixotes prateados do lixo, mas estes eram pequenos demais para que ela chegasse ao topo da parede. Sem outra alternativa, desceu, ouvindo as vozes de dois homens cada vez mais perto.

Sem nenhum aviso, foi agarrada por Rudolph, e ele colou os lábios nos dela, naquilo que lhe pareceu um beijo. Forçado e vindo do nada, tentou gritar, mas não conseguia quase mexer a boca. Atrás deles os dois oficiais passaram, conversando um com o outro.

- São só dois namorados. Olha-me para aquilo, nem sequer um lugar melhor arranjaram. Tomara que a minha namorada fosse assim.

Foram-se embora, sem sequer suspeitar de que ela era a pessoa que procuravam. Mas, naqueles minutos, já a sua cabeça viajava a mil. O hálito dele sabia a uma combinação pouco usual de vodka e mel, a qual, na verdade, até a agradava. E ele não beijava mal, se bem que o seu conhecimento em beijos fosse nulo. Soltaram-se um ao outro, ofegantes. A sua mente parecia voltar, lentamente, ao normal. E, com isso, levantou uma das mãos e desferiu-lhe uma estalada sonora, que ecoou pela rua.

- Não voltes a fazer isso nunca mais! - Gritou-lhe, virando-lhe as costas num passo altivo. O moreno massajou a face, e teve que apressar a marcha para a seguir. Parecia que qualquer coisa entre eles tinha mudado, ou talvez fosse só impressão sua.

Voltaram a casa em silêncio. Entraram dentro do automóvel, cada um com a cara virada para outro lado. Ringo, que até àquele momento tinha estado à espera deles dentro do velho Phantom preto, lia um livro de capa descascada. Nenhum deles disse nada, e quando Rudolph rodou a chave na ignição, a única coisa que se ouvia era o suave roncar do motor. O alto tubo de escape lançava baforadas de vapor, e começavam a deixar aquela rua para trás.

Não era muito comum verem-se automóveis a circularem dentro de Amarentia, por isso avançavam cautelosamente pelas ruas estreitas. A cada esquina julgavam ver uma carruagem da polícia de Paladina, e cada pessoa que os olhava parecia suspeita. Cassidy e Ringo voltaram a passar pela porta do restaurante onde elas as três tinham entrado antes de serem perseguidas e separadas. Atrás da porta de vidro, as empregadas olharam-nas também. A morena lembrou-se do olhar enviesado da mulher dos caracóis brancos, e teve quase a certeza de saber quem havia avisado os oficiais da sua presença.

Foi com alívio que abandonaram a metrópole, de volta à paisagem campestre. Estavam a voltar a Este, mas o caminho que tomavam era diferente do anterior, devido ao facto de estarem mais a sul. Ringo abriu a janela e pôs a cabeça de fora, segurando a cartola antes que se perdesse. O vento revoltava-lhe os cabelos, como uma sensação libertadora.

No interior, Cassidy fitava o tecto, pensativa. Estava dividida entre manter-se neutra a deixar que aquela imagem lhe ocupasse a mente. E embora a primeira opção a seduzisse mais, a outra era a mais persistente. Para ela, era demasiado óbvio que ele, além de bêbado, devia ser mulherengo. Pois pior ainda.

- Passa-se alguma coisa? - A rapariga-espírito voltou-se para ela, de súbito, antes de voltar a fechar a janela. Estavam as duas juntas no banco traseiro, ao lado de uma mala com comida.

- Não. - Respondeu-lhe rapidamente, e para disfarçar tirou uma garrafa de água. Desenroscou a tampa com a mão trémula, levou o gargalo à boca e deu um grande gole. No entanto havia alguma coisa errada ali, porque aquela água não sabia a água e sim a álcool. Começou a tossir, e os olhos lacrimejavam, mas conseguiu engolir o que tinha na boca.

Ringo tirou-lhe a garrafa da mão e cheirou o interior, torcendo o nariz de seguida. Voltou a tapá-la e guardá-la, antes de se voltar para ele, que se esforçava em não parecer muito suspeito.

- Quantas garrafas trocaste? - Perguntou, sem papas na língua, esboçando um sorriso matreiro ao vê-lo corar.

- Três ou quatro. - Respondeu-lhe em voz sumida, baixando a cabeça de encontro ao volante. Ela riu-se, voltando a acomodar-se no banco traseiro. Ramos de árvores roçavam nos vidros e no metal do Phantom, e pareciam andar sobre pequenos montinhos de terra e raízes e buracos. O chão da floresta era muito irregular, e as copas das árvores adensavam-se acima deles. Aos poucos a luminosidade diminuía, como se estivesse a anoitecer. Mas o relógio ainda marcava as onze horas da manhã.

Estavam a chegar perto do local, e não era apenas Ringo que o pressentia. Cassidy voltou a tirar o violino, e reparou que as cordas deste vibravam, como uma pulsação.

- Este lugar têm uma aura de magia mais antiga que o crepúsculo. - Sussurrou-lhe o relógio ao ouvido, e ela pôde notar uma certa inquietação. Ringo aproximava-se para ouvir a conversa.

- Talvez Annouk saiba que tipo de espíritos habitam neste lugar. - Falou, mais para si mesma do que para os outros. Era altura de chamar o seu cão de guarda preferido.

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