Capítulo 11
Aroma de canela


- Onde está? - O homem perguntou, e de seguida deu-lhe uma estalada que lhe virou a cara e ressoou pela sala escura e húmida. Mas Nofrure estava demasiado dormente para sentir mais uma estalada.

- Não... sei... - Respondeu, entre golfadas de ar, com um olho inchado e fechado. Encolheu-se à espera de outra agressão, mas esta não veio. Ele virara-lhe as costas, de modo que ela só lhe conseguia ver os longos cabelos negros, presos por uma linha avermelhada como sangue.

- Parece-me que temos de ir procurar as tuas amiguinhas. Queres que comece pela mais pequena, ou tentamos já a violinista? - Saboreava cada palavra rosnada num silvo baixo e frio, que a fez tremer.

- Não, não! - Gritou, e puxava as correntes que a prendiam à cadeira, mas não se conseguia soltar. Uma mão agarrou-lhe a cara, e um copo metálico foi pressionado contra a sua boca. Sem outra alternativa, engoliu o líquido que escorria dela e, lentamente, a sua consciência foi abandonando-a.

*****

Cassidy e Ringo tinham passado o resto do dia em casa de Rudolph, imersas em planos para reaver o orbe de cristal claro com a pirâmide invertida no seu interior. Ringo afirmara que este fora escondido no interior da Floresta Vermelha, num antigo túmulo de pedra, quando ela ainda era viva e humana. Baseadas nas suas memórias, tentaram desenhar um mapa da localização, e o moreno trouxera alguns livros da biblioteca municipal para as ajudar.

Decidiram passar a noite lá, e partir de manhã. Cassidy partilhou a cama com Ringo, que, com a fraqueza do dia, aproveitara para chorar silenciosamente, enquanto se perguntava como estaria Nofrure. Mentalmente, a ivoriana jurou que não voltaria a deitar-se com crianças na cama, principalmente se estas lhe agarrassem o estômago a meio da noite e o apertassem com todas as suas forças. Conseguiu adormecer quando já passava da meia-noite, um sono profundo e pesado, como se toda a sua energia tivesse sido misteriosamente sugada.

A porta do quarto abriu-se, e Rudolph espreitou lá para dentro. Não conseguiu ver nada para além daquilo que lhe pareciam ser contornos da mobília e delas. Não demorou nem dois minutos, e depressa fechou a porta. Tinha ficado confinado ao sofá, que era duro como pedra. No entanto, em criança tinha sido ensinado a ser um cavalheiro, e não abrira a boca para reclamar. Mesmo assim, isso não lhe serviria de nada contra o desconforto do assento. Lembrou-se de quando, há alguns meses atrás, um suposto vidente lhe contara que teria a oportunidade da sua vida. Não lhe tinha fornecido mais detalhes, terminando a previsão com “Saberás quando for.” Na altura parecera-lhe falso, porém quando Cassidy e Ringo chocaram contra ele, as ideias clarearam na sua cabeça... mesmo que ele continuasse sem saber o porquê da extraordinária mudança.

Deitou-se, solitário, enrolado num cobertor de lã, com uma garrafa de cerveja na mão. Por mais que alguns amigos antigos, que chegara a considerar verdadeiros, o alertassem para o perigo daquele vício, a bebida era uma das únicas coisas que o confortavam. E, com esse pensamento, levava o gargalo à boca uma e outra vez. Até adormecer.

Acordou com alguém a espetar-lhe um dedo no peito. Quando abriu os olhos já a luminosidade da manhã lhe entrava pela janela da sala, e Ringo puxava-lhe um dos braços para que ele se levantasse. Da cozinha vinha o cheiro a pão queimado, misturando-se com os outros cheiros da casa. E um delicioso cheiro a canela mentolada e baunilha.

Levantou-se, quase tropeçando numa mala que tinham arranjado na noite anterior. Desta vez iam viajar de automóvel, um velho Phantom a vapor, uma vez que Ringo insistira, apelando à distância e escassez de alimentos na floresta. Mas antes disso ainda tinham que devolver os livros à biblioteca.

A cozinha estava desarrumada, assim como tudo o resto naquela casa. Cassidy punha torradas num prato estalado, em cima da mesa. Ao lado estava uma chávena fumegante, de onde emanava o aroma do chá. A ivoriana empurrou o prato na sua direcção, com um pote de mel e uma caixa de manteiga. As torradas estavam levemente queimadas, com as pontas pretas. Torcendo o nariz, barrou as torradas e comeu-as sem grandes cerimónias. Cassidy continuava a observá-lo, por cima da chávena, entre goles. Os óculos impenetráveis causavam-lhe arrepios, ainda mais com as sobrancelhas franzidas.

- Vou carregar as malas. - A rapariga-espírito levantou-se, virando-lhes as costas. Não tinha dado nem dois passos quando o paladinense lhe puxou uma das abas do casaco vermelho.

- Não são demasiado pesadas para ti? - Perguntou, esforçando-se por parecer polido sem deixar que a voz denotasse alguma preocupação. Atrás deles a morena da franja vermelha virou a cara.

- Que cavalheiro, mas não. Não me subestimes. - Puxou-lhe o nariz, como numa brincadeira infantil, e, num estalar de dedos, as malas seguiram-na, a levitar. Voltou a sua atenção para a frente, onde Cassidy acomodava a loiça suja no lavatório com o maior ruído possível.

Terminou a refeição em silêncio, vendo-a afastar-se da divisão. Quando passou por si emanava aquele cheiro característico da canela de Ivoria, como um perfume único. Abandonando o prato na mesa, regressou à sala para levar os livros de volta. Saiu da casa, olhando para trás. Mas, ao contrário de Cassidy, ele não sentia a mínima tristeza em abandonar aquela residência. Na verdade, sentia-se muito mais alegre. Talvez deixasse a porta aberta, com a chave no trinco, para que algum vagabundo necessitado pudesse ocupá-la.

- Talvez seja melhor vocês ficarem aqui... e eu já volto. - Tentou convencê-las, apontando para o automóvel. Ringo entrou, mas Cassidy, de cabeça erguida, limitou-se a tirar alguns volumes dos seus braços e a adiantar-se a ele. Como a outra tinha apenas encolhido os ombros, resignou-se e seguiu-a. - Lá em Ivoria... hamm... também têm livros destes? - Perguntou, vendo a atenção especial com que a sua companheira lia um dos livros. Mas parecia-lhe pouco provável que a resposta fosse negativa.

- Temos. - Respondeu-lhe, seca. Chegaram à Biblioteca Municipal, um edifício branco e resplandecente, em silêncio, e em poucos minutos devolveram os livros. No entanto, quando estavam de saída, repararam numa carruagem paladinense que não estava ali antes.

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