Capítulo 10
Arte da dedução


Não foram seguidas, mas, por precaução, evitaram abrandar o passo. Para piorar a situação, olhavam para trás e não para a frente, e acabaram por chocar contra alguém. Caíram no chão, em cima de alguém magro e com enormes botões de marfim na roupa.

Levantaram-se, e Ringo pedia desculpas compulsivamente. A ivoriana endireitou os óculos e fitou o estranho com o qual acabaram de chocar. Era apenas uns centímetros mais alto do que ela, de longos cabelos negros presos numa trança. Os seus olhos azuis gelados observavam-na de alto a baixo, como se a avaliasse.

- Não há problema. - Tranquilizou a pequena de vermelho, mas aquilo não parecia terminar por ali para a morena da franja vermelha. Distraiu-se a observar cada pormenor dele, como se fixá-lo fosse suficiente para obter qualquer coisa.

Vestia uma camisa branca, com um colete escuro de duas filas de enormes botões de marfim por cima, calças azuis com risca de giz e sapatos de fivela envernizados. Uma gravata vermelha esvoaçava com o vento que se tinha levantado. Se ainda estivesse em Ivoria e nada daquilo tivesse acontecido, até poderia achá-lo mais interessante.

- O meu nome é Liddell. Rudolph Liddell. Não, espere um momento. - Interrompeu-a antes mesmo que ela pudesse falar, e ela fechou a boca como um peixe num aquário. - O seu nome é Cassidy Ridley, morava em Ivoria até relativamente pouco tempo, toca violino e tem uma preferência pelo chá de canela ivoriana.

- Como? - Estreitou os lábios, e Ringo olhava surpresa para ele e para ela, alternadamente.

- Simples. Esse tipo de tecido é fabricado apenas em Ivoria, e como eu já fui Inspector em Paladina, lembro-me de que o único processo de procura em relação a habitantes da cidade do norte era o de Cassidy Ridley. Não, eu já não trabalho para lá, fui despedido. - Apressou-se a dizer, perante os olhares das duas. - Segundo, trazes um violino na mão, e os acordes que ouvi não estavam desafinados. Terceiro, o teu hálito cheira a canela ivoriana.

Depois daquele discurso, Cassidy não sabia o que fazer. Aquele estranho que ela nunca vira mais gordo na vida parecia saber mais do que aquilo que consideraria aconselhável. No entanto Ringo parecia ter simpatizado com ele, e no minuto seguinte já se apresentava.

- Sou a Ringo. Espírito Imortal. - Enquanto falava, começaram a afastar-se do local. Rudolph conhecia melhor a cidade de Amarentia do que elas, e naquele momento era ele que as conduzia pelas ruas de pedra da metrópole.

- Não é aconselhável serem vistas, depois disto. Há polícias de Paladina em cada canto da cidade, e pior, fazem coisas inimagináveis. - Comentou mordazmente, cerrando os punhos.

- Tais como bolas de fogo? - Cassidy perguntou calmamente, e teve a sensação de dejá vù. Onde já teria ela presenciado aquilo.

- Exactamente. - Rudolph olhava para ela, com uma expressão que não augurava nada de bom. Ringo também a fitava.

- Não são os oficiais que as fazem, mas sim um poderoso sacerdote ivoriano que se chamava Demergon. Deixou de ser visto há dois anos atrás, quando viajou até ao Templo Lunar para a convenção anual dos portadores de magia. Era especialista em feitiços de destruição. E foi meu professor de letras durante cinco anos. - Comentou com algum azedume. Lembrava-se de como ele era extremamente orgulhoso e de mau carácter, de como era capaz de destruir um muro de pedra com um estalar de dedos.

- É possível que ele esteja por trás disto? - Ringo perguntou, com um arrepio.

- Não. Ele apenas contribui com os feitiços, não está no controlo. Se estivesse já tinha dado a cara há muito tempo. - Olhou para o resto de horizonte que ainda era possível ver entre as casas. Naquele momento sentiu-se como quando ainda estava na escola, e perguntava “O que vou fazer agora?”, à espera de uma ordem.

Rudolph abriu uma das portas, e entraram naquilo que parecia ser um escritório. Havia papéis espalhados em cima da secretária e dos bancos feitos de barris de vinho, pastas abertas no meio do chão com garrafas vazias por cima. Evitando pisar alguma coisa, as duas companheiras tentaram segui-lo até uma outra sala. Esta estava mais arrumada, embora ainda houvessem coisas espalhadas no chão e Cassidy se tivesse sentado em cima de uma jarra de flores vazia que estava no sofá.

Ele foi até à cozinha, e voltou com dois copos e uma garrafa de whisky envelhecido em cascos de pinho. Sentou-se ao lado da ivoriana, distribuindo copos pelas duas. Depois serviu uma dose generosa em cada copo, e bebeu o resto directamente da garrafa. Ringo olhava-o de olhos esbugalhados, e Cassidy engasgou-se com a sua bebida.

- Bêbado! - Uma vozinha irritada saiu-lhe do bolso, manifestando o estado de espírito do relógio. A morena lembrou-se dele, e de como ele tinha estado calado nos últimos dias. No entanto nem Rudolph nem Ringo tinham conhecimento dele, e olhavam agora para todos os cantos da sala, à procura do invasor.

- Não se preocupem, é só o relógio. Ele gosta de mandar uma boca, às vezes. - Acalmou-os, e, para lhes mostrar, tirou-o do bolso. Relutante, este levantou-se da sua mão e reclamou:

- Podias ser mais simpática!

- Essa coisa fala! - O moreno apontou um dedo acusatório ao relógio, mas Cassidy voltou a guardá-lo no bolso sem se alongar em mais explicações. No entanto ainda havia uma pergunta entalada na sua garganta.

- Porque nos trouxeste aqui? - Pousou o copo na mesa de vidro, ao lado da garrafa vazia. Ringo mexeu-se desconfortavelmente no cadeirão onde estava, deitando-se para o lado.
- É óbvio. Vocês as duas são procuradas por todos. Quando fui expulso vocês tinham a cabeça a prémio. E tudo por causa de uma pirâmide. Quero dizer, vocês podem evitar... o que quer que aquilo seja.

- Isto gira à volta da pirâmide? - Ringo perguntou, e ele anuiu com a cabeça. - Então se é assim basta destruir a fonte de energia, e já não podem fazer nada.

Cassidy enterrou o rosto nas mãos, tentando visualizar o sonho que a atormentava há semanas. O interior da pirâmide, a cascata de luz.

- E onde está a fonte?

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