Capítulo 1
Uma xícara de chá


A luz jorrava, em cascatas, à sua volta. Vozes falavam-lhe, umas ásperas como carvão e outras angelicais. Tentava tocar-lhes com a mão, mas só apanhava ar. De repente sentiu os olhos a arder, como se lhe tivessem espetado um atiçador de ferro quente. Tentou gritar, mas não ouviu a sua voz. Estava perdida.

*****

O sol mal tinha nascido e já a cidade se animava para um novo dia, com as suas pesadas máquinas a vapor e as complexas estruturas douradas. Todos os dias o quotidiano não se alterava, como se a metrópole tivesse uma rotina fixa e inalterável. Essa era a vida na nortenha cidade de Ivoria. Coisa que a pacata e racionalista Cassidy, acima de tudo, prezava.

A morena, de redondos e espelhados óculos escuros, cujos aros dourados brilharam debilmente com os fracos raios solares, tinha por hábito sair de casa de manhã, ainda cedo, e passar pela pastelaria, de nome Melaria, provavelmente a confeitaria mais famosa da cidade. Não era grande apreciadora da clientela que habitualmente a frequentava, mas a Melaria era a única que servia o chá de canela ivoriana que ela apreciava. E Cassidy não estava disposta a abandonar o seu pequeno luxo matinal apenas por um punhado de pessoas que não a suportavam.

Trancou a porta à chave, e deu meia volta, decidida, apertando mais o casaco contra a pele. Debaixo dos sapatos a neve rangia. Podia-se dizer que se parecia com a neve, mas não era. O ar circundante estava à temperatura de dezassete graus Celsius, quente demais para a solidificação da água. No entanto Ivoria não era uma cidade normal.

Ivoria era já considerada a cidade mais poluente da ilha de Galésia, apenas seguida pela imponente cidade de Paladina. Porém, contrariando os efeitos pensados pelos alquimistas, que durante anos estudaram os gases libertados pela maquinaria, alguns destes componentes uniram-se numa massa estável, impossibilitada de nocivas reacções químicas, similar à neve comum, porém com um ponto de fusão muito mais elevado do que a água. E, enquanto não surgisse um estudo que provasse o perigo da neve platinada, de reflexos cor de prata, as crianças da cidade continuariam a fazer bonecos de neve e acesas lutas, num cenário digno de um postal de Natal.

Isso, para Cassidy, só lhe fazia ter mais frio ainda. Embora estivesse uma temperatura que até se suportava, ela era friorenta demais, preferindo enrolar-se no casaco, preto de cauda e ombros largos, em vez de aproveitar os tímidos raios de sol. E ainda por cima, pensava ela, mordazmente, vives aqui nesta terra do norte desde que nasceste.

Parou em frente da fachada de um edifício de paredes brancas, com o rodapé pintado em cores claras e suaves, em clara alusão a doces. Duas montras, com o nome da pastelaria em letras garrafais e protegidas por coberturas às riscas azuis e rosas, expunham bolos, cremes e doces de fazer crescer água na boca. O chocolate e o doce de morango eram claramente os doces predominantes.

Entre as duas montras estava a entrada, uma porta de vidro decorada com desenhos de cores garridas. Empurrou-a, ouvindo o tinido suave que um pequeno sino, abafado pelas vozes de jovens que ali procuravam abrigo antes de passarem o dia na Universidade. Estas calaram-se quando a viram passar a ombreira da porta e sentar-se numa mesa, num canto ao lado do balcão. Os olhos delas detinham-se nos óculos, uma vez que não era possível ver nada atrás deles. De facto ninguém na cidade tinha visto alguma vez os olhos da morena de franja vermelha.

- O do costume? - Uma loira, com um chapéu de papel rosa e duas falsas orelhas de coelho sorriu-lhe do balcão, abanando um pequeno bloco de notas. Usava o uniforme de empregada, também rosa, com um avental branco, rendado e bordado.

- Sim, chá de canela. Já nem vale a pena perguntar, Mitsu. - Comentou, apoiando o queixo com uma mão. As outras clientes já tinham recomeçado os cochichos, dos quais ela desconfiava sempre, mas não lhes dava importância.

Não demoraram nem cinco minutos quando a loira voltou, trazendo uma chávena, de porcelana branca e com desenhos de flores, fumegante. O cheiro de canela e baunilha elevava-se no ar, misturando-se com outros aromas adocicados.

Levando a chávena à boca e sorvendo um pouco do líquido quente, olhou pela janela da montra para a rua. Esta começava a animar-se, com crianças a correr pela neve, e alguns operários apressavam-se para as fábricas. Nada indicava que este não seria outro dia comum. - São nove horas e dois minutos. - O relógio de prata saiu-lhe do bolso, como se estivesse vivo e soubesse voar, e falou-lhe ao ouvido. Para ela já era tarde, por isso engoliu o chá à pressa, quase queimando a garganta. Pousou a chávena em cima do pires, na mesa, assim como cinco moedas douradas e baças. Retirou-se, e o pequeno sino colocado estrategicamente em cima da porta voltou a tinir.

Desta vez já não tinha tanto frio, e pôde andar mais à vontade. O casaco, completado por uma gola branca presa por um incandescente rubi, na verdade, fazia parte de um conjunto, com calças, também elas da mesma cor, sapatos de cavalheiro e cartola. Não era um estilo usual, mas já a conheciam por isso mesmo.

Regressou a casa, de mãos nos bolsos. Vivia numa torre, com um relógio responsável por indicar as horas a Ivoria. A casa ficava nos pisos superiores, em cima de uma pequena relojoaria que ela mesma mantinha aberta. Desde a morte dos pais que consertava e vendia todos os tipos de relógios, negócio que era suficiente para a manter alimentada e vestida, com uma habitação que causaria inveja a algumas pessoas.

Abriu a porta do estabelecimento e prendeu-a com uma cunha para que esta se mantivesse aberta ao público, resistindo ao vento que, naquele momento, se fazia sentir. No seu interior, encostados à parede, relógios de pêndulo e de cuco tiquetaqueavam a um ritmo regular. Num pequeno expositor descansavam relógios de pulso e relógios de bolso. Sentou-se atrás da bancada, à espera de algum cliente que entrasse.

Página Principal
Seguinte »